SUMÁRIO


Índice
do livro

"RELIGIÃO: MITO OU SUPERSTIÇÃO?"
de Berthelot Menezes Cardoso (1915-1997)

PREFÁCIO

INTRODUÇÃO
A BÍBLIACAP. 1
A IGREJA CATÓLICA ROMANA E A BÍBLIA - CAP. 2
OUTRAS IGREJAS E A BÍBLIA
CAP. 3
O PENTATEUCO - CAP. 4
A INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA - CAP. 5
A VERDADE E SUA ÉPOCA - CAP. 6
DO NASCIMENTO DA TERRA AO HOMEM - CAP. 7
SURGEM AS ESPÉCIES VIVENTES - CAP. 8
O MUNDO EM QUE VIVEMOS - CAP. 9
CRIAÇÃO DO HOMEM - CAP. 10
O HOMEM - CAP. 11
ADÕES E EVAS - CAP. 12
A IDÉIA DE UM SER SUPREMO - CAP. 13
AS CRENÇAS RELIGIOSAS - CAP. 14
RELIGIÃO E FÉ - CAP. 15
RELIGIÃO OU SUPERSTIÇÃO - CAP. 16
A ALMA - CAP. 17
OS ANJOS - CAP. 18
DEUS DE ABRAHÃO, ISAAC E JACOB - CAP. 19
O CRISTIANISMO - CAP. 20
O NOVO CRISTIANISMO - CAP. 21
CRISTIANISMO E CATOLICISMO - CAP. 22
O CRISTIANISMO SE TRANSFORMA EM CATOLICISMO - CAP. 23
RESUMO DA HISTÓRIA DOS PAPAS - CAP. 24
CATOLICISMO E IDADE MÉDIA - CAP. 25
O BATISMO - CAP. 26
O VERDADEIRO MESSIAS - CAP. 27
JESUS HOMEM - CAP. 28
O MINISTÉRIO DE JESUS - CAP. 29
OS DISCÍPULOS DE JESUS - CAP. 30
OS EVANGELHOS - CAP. 31
JOÃO, SEU EVANGELHO, SEU APOCALIPSE - CAP. 32
A INQUISIÇÃO - CAP. 33
A INQUISIÇÃO NO BRASIL - CAP. 34
MANUAL DOS INQUISIDORES - CAP. 35
A IGREJA COMO ORGANIZAÇÃO FINANCEIRA - CAP. 36
A IGREJA SEMPRE AO LADO DOS PODEROSOS - CAP. 37
A IGREJA CATÓLICA E OS DIREITOS HUMANOS - CAP. 38
PARTENOLATRIA (CULTO À VIRGINDADE) - CAP. 39
HIPERDULIA - CAP. 40
"JE VOUS SALUE, MARIE" - CAP. 41
OS SANTOS - CAP. 42
SANTOS E MILAGRES - CAP. 43
AS RELÍQUIAS - CAP. 44
PLÁGIO NA BÍBLIA - CAP. 45
CISMAS - CAP. 46
CELIBATO ECLESIÁSTICO - CAP. 47
A RESSURREIÇÃO DE CRISTO - CAP. 48

QUEM ERA MADALENA - CAP. 49
ASCENÇÃO DE CRISTO - CAP. 50

Prefácio

Publico abaixo o livro de meu pai, Berthelot de Menezes Cardoso, que retornou ao mundo espiritual em 30 de janeiro de 1997. No fim de semana anterior da sua morte ele concluiu este livro.

Na manhã de sua morte terminou uma obra de alvenaria no porão de sua casa em Teresópolis, onde funcionava seu escritório, biblioteca e cozinha/laboratório para fabricação caseira, como hobby, de cervejas e vinhos. Pagou os pedreiros e foi ao açougue providenciar um almoço especial, de um prato que gostava muito. Almoçou e foi descansar satisfeito, com todos os deveres de sua vida cumpridos. Os deveres imediatos, a obra (que ganha simbolismo) nas dependências de seu escritório, o seu livro que resumia sua visão da uma vida sobre a religião, a criação de seus filhos formados e bem encaminhados (dois casais, de dois casamentos, com exatos 20 anos de diferença entre os dois casamentos e nascimentos, ambos casais formados de um primogênito seguido de uma caçula 3 anos depois)... tudo estava concluído e ele estava em paz.

Sempre dissera que queria morrer em casa, com a "barriga cheia", em paz. Nessa tarde, logo após a "sesta" do "almoço especial", levantou-se, foi até a sala e então seu espírito descobriu o "momento ideal", e num infarto rápido Berthelot deitou-se, desfaleceu e descansou... em casa.

Com 81 anos de idade e perfeitamente lúcido e produtivo, editou ele mesmo este livro em computador, que utilizava intensamente para troca de mensagens em "listas de discussão" por email sobre religião, desde antes da Internet chegar ao Brasil, através de serviços da BBS "Inside". Suas cópias de leitura e revisão eram feitas em uma impressora laser, HP Laserjet 4, já naquela época.

Berthelot estudou no Colégio e Seminário do Caraça (MG). Em Campo Belo, sua cidade natal, trabalhou com o pai, farmacêutico, em sua farmácia. Aos 16 anos veio para o Rio de Janeiro, no Flamengo, sozinho e sem bens, para trabalhar em farmácia e outros estabelecimentos. Nadava e jogava vôlei no clube do Flamengo. Cuidou de ingressar na Força Aérea Brasileira para ser piloto, mas um problema de visão periférica na vista esquerda o impediu de prosseguir.

Lia e estudava intensamente, durante toda a sua vida, inclusive línguas e latim. Um crítico da Igreja, acumulou anos de pesquisas e estudos, livros e recortes, sobre temas da Bíblia e de religião, entre outros, de política e ciências, catalogadas em pastas e arquivados para consulta.

Este livro representa uma síntese de seus pensamentos e conclusões sobre o tema, que Berthelot colocou em ordem a partir de uma biblioteca acumulada de centenas de livros e dezenas de bíblias em diversas línguas e versões religiosas.


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Introdução

Deixemos aos mistérios seus ensinos: não perturbemos as fantasias individuais ou coletivas de suas imaginações, porém, não consintamos que a intolerância nos imponha seus ensinos como regra de atividade social.

Marcelin Berthelot


O presente trabalho não é literário, nem didático, e muito menos erudito. O que se pretende é trazer à luz interpretações que sempre se mantiveram veladas, verdadeiros tabus, interditas pelo freio religioso que sempre distorceu a verdade, fazendo delas objeto de escravização das consciências.

O sofisma consiste em distorcer a verdade dando-lhe um sentido tendencioso de aparência verdadeira. Assim acontece aos homens com relação às ordenações a que vivem subjugados. As religiões foram feitas de maneira ambígua e seus ministradores as distorcem e fazem do povo escravo dos seus conciliábulos.

A verdade meridiana é forjicada e modelada através de um raciocínio tendencioso de tal maneira que, o que se apresenta de maneira clara e transparente, torna-se escuro e opaco. Usam de tais artifícios que o pensamento não age mais com independência, ficando subordinado a interpretações contrárias.

Para se ter uma idéia de como as distorções podem modificar a idéia primitiva, basta citar um artigo que consta de todas as constituições modernas: "Todos são iguais perante a lei". Ninguém tem a coragem de declarar, de público, que isso é uma cínica mentira. Procuram embaralhar o pensamento usando palavreado ambíguo para dizerem o que poderia ser dito clara e resumidamente.

O Padre Leonardo Boff em sua obra Igreja, Carisma e Poder, tão combatida pelo Vaticano, principalmente pelo atual Papa João Paulo II, cita uma obra: Mysterium salutis, Petrópolis, 1971, fl. 34, editada em vinte e quatro volumes! Não seria de admirar o aparecimento de outra obra de igual fôlego, em vinte ou trinta volumes: "A Influência da Minhoca na Guerra do Paraguai".

O que propomos é interpretar o que está escrito, “ipsis litteris”, sem dúbias interpretações, para ser compreendido, pelo povo de espírito forte, independente e sem preconceitos, a história simples e clara, que, dos púlpitos, se reveste de mistérios e de sobrenaturais.

O mistério fica para aqueles que não desejam conhecer a verdade na sua simplicidade.

A Bíblia

A Bíblia, ou melhor, o Antigo Testamento, relata a história do povo judeu: sua formação, suas lutas e sua literatura, entremeando lendas primitivas da criação do mundo oriundas de outras civilizações mais antigas.

Os hebreus, cuja história é bastante controvertida, têm sua origem em grupos nômades da região da baixa Mesopotâmia, que teriam emigrado da região de Ur, na Caldéia, para a Síria, por volta do ano 3000 AC.

Segundo a tradição, a história começou com o patriarca Abraão, cujos descendentes constituíram um grupo semi-nômade que se estabeleceu na região central da Palestina depois de peregrinar por diversas terras, inclusive o Egito.

Abraão foi pai de Isaac, e este de Jacob, que mais tarde se fixou no Egito, onde a vida era bem mais fácil, não só pela qualidade das terras como pelas diversas facilidades que os semitas encontravam no país, recentemente conquistado pelos hicsos, invasores de raça também semita.

Com a expulsão dos hicsos pelo Faraó Ahmosis I (1580 A.C.), todos os semitas, inclusive os descendentes de Jacob, perderam suas regalias, das quais abusaram discricionariamente por mais de um século, e começaram a sofrer, por parte dos egípcios, os mesmos sofrimentos que infligiram ao povo nativo, terminando por viver em verdadeira escravidão, que durou quatrocentos e trinta anos.

Esse foi um dos fatos mais marcantes da história dos judeus narrada no Antigo Testamento.

Com a expulsão dos escravos semitas do Egito (1250 A.C.), aparece em cena Moisés que, aproveitando-se da desesperada ansiedade do povo, insinuou-se como seu guia e condutor pelos desertos, e evitou a estrada real, que era pontilhada de fortalezas, ora egípcias, ora filistéias. Era de seu interesse se afastar o mais rápido possível, pois as mulheres hebréias furtaram o que foi possível nos lares onde trabalhavam, e os bens poderiam cair em poder dos soldados, ou serem recuperados.

Então ( o Faraó) chamou a Moisés e a Aarão de noite, e disse: Levantai-vos, saí do meio do meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; e ide. E os egípcios apertavam ao povo, apressando-se para lançá-los fora da terra. E o povo tomou a sua massa, antes que levedasse, as suas amassadeiras atadas em sus vestidos, sobre seus ombros. Fizeram pois os filhos de Israel conforme a palavra de Moisés, e pediram aos egípcios vasos de prata e vasos de oiro , e vestidos. E o Senhor deu graças ao povo nos olhos dos egípcios, e emprestavam-lhes: e eles despojaram aos egípcios. E cozeram bolos ázimos da massa que levaram do Egito, porque não se tinha levedado; porquanto foram lançados do Egito; e não se puderam deter, nem ainda se prepararam comida”.( Êxodo: 12:39)

Após três meses de caminhada, a indisciplina chegou a tal ponto e intensidade, que Moisés, aconselhado por seu sogro Jetro, outorgou ao povo uma rigorosa legislação de cunho militar que lhe garantiu a autoridade.

Além de dividir os homens em formações militares, atribuiu ao seu irmão Aarão todo o poder religioso nos moldes egípcios, com sumo-sacerdotes e todo o clero subalterno, que passou a exercer sobre o povo uma verdadeira ditadura religiosa, com penas de morte para centenas de infrações.

De acordo com o que se encontra em Êxodo , 12:37-38, que diz: “ Assim partiram os filhos de Israel de Ramsés para Sucot, coisa de 600.000 de pé, somente de varões, sem contar os meninos. E subiu também com eles muita mistura de gente, e ovelhas e vacas, uma grande multidão de gado.”

Calcula-se em pelo menos 3 milhões de pessoas, pois não se contavam mulheres e meninos, tanto dos israelitas, quanto dos demais semitas expulsos juntamente.

Se a alimentação de cada pessoa fosse de 200 gramas de qualquer tipo de comida, a ração diária seria de, pelo menos, 600.000 quilogramas, ou o eqüivalente a 10.000 sacos de 60 kg. cada.

Para transportar essa grande quantidade de alimentos haveria necessidade de um grande número de animais de carga, fossem bois ou jumentos.

Calculando-se que só a metade da carga fosse transportada por animais (300.000 kg.) e que cada um transportasse 100 kg., seria necessário um mínimo de 3.000 cargueiros, sem contar suas rações.

Cada um dos animais desse imenso rebanho necessitaria de um mínimo de 500 gramas de alimentos por dia para o próprio sustento.

Nenhum ser vivo resistiria à falta d’água ao caminhar por um deserto, portanto uma quantidade de água semelhante aos alimentos deveria ser transportada.

Mais adiante, em Êxodo, 18:21, consta que os homens foram divididos em grupos de 10, 50, 100 e 1000. Formariam 600 contingentes de 1.000 homens cada, um verdadeiro exército, certamente sem qualquer armamento, pois , embora possuíssem grandes riquezas furtadas dos egípcios, dificilmente encontrariam no deserto um fornecedor de armas de tal porte. Entretanto enfrentaram uma batalha com um certo Amalek, que, sendo derrotado, teve todo o seu povo passado (assassinado) a fio de espada. (Êxodo - l7:13)

Essa escaramuça se deu antes do terceiro mês após a saída do Egito, portanto os hebreus, ou saíram de lá com armamentos de guerra - o que seria inconcebível - ou essa luta teria feições de assistência divina. Se os hebreus tiveram que sair tão apressadamente, que nem tiveram tempo para preparar o pão daquele dia, como teriam conseguido armas?

Após quarenta anos pelos desertos, Moisés chega às margens do Jordão, que não chegou a atravessar. Dos hebreus saídos do Egito, adultos, o número dos que viram a "terra prometida" foi bem pequeno. Em Gênesis, 12:37, são mencionados 600.000 retirantes, só varões, sem contar as mulheres e crianças, o que daria no mínimo de três milhões de pessoas, aproximadamente. Esse número fabuloso de flagelados a atravessarem um deserto inóspito, sem água e sem alimentos, durante quarenta anos, é certamente exagerado e não pode ser exato de acordo com os entendimentos atuais.

A estória bíblica da travessia do Mar Vermelho é uma lenda épica para sugestionar o povo inculto que não tinha acesso às Escrituras e, era levado a acreditar no que os Sacerdotes lhes pregavam.

Os escravos semitas, tanto israelitas quanto de outras nacionalidades, estavam localizados nas imediações do Delta do Nilo, na Terra de Gosen, onde os Faraós desenvolviam uma avançada agricultura e obras de construções diversas, valendo-se ali de escravos de várias raças, recrutados em campanhas militares.

O Mar Vermelho perde sua qualidade de mar ao norte das terras egípcias que fazem limites com a Península do Sinai, seguindo para o norte numa espécie de alagado, com água quando a maré estava alta, e dando passagem a pé pelo fundo areento, quando a maré estava baixa. Ali já existiu um canal que ligava o Mar Vermelho ao Grande Mar ( Mediterrâneo), construído por um Faraó de antiga dinastia, que, devido às guerras constantes, ficou açoreado. Nesse percurso existiam, permanentes, somente alguns lagos.

Os egípcios atravessavam constantemente esse alagado, nas intermitências das marés; ao sul, na estrada que ligava Menfis às minas de cobre do Sinai e, ao norte, na estrada que ia para a Babilônia ou, noutro percurso, para as terras dos filisteus e de Canaã.

A passagem da Bíblia, em Êxodo, l4:21-23, que diz: “Então Moisés estendeu a sua mão sobre o mar, e o Senhor fez retirar o mar por um forte vento oriental toda aquela noite; e o mar tornou-se em seco, e as águas foram partidas. E os filhos de Israel entraram pelo meio do mar seco, e as águas foram-lhes como muro à sua direita e à sua esquerda.”

Moisés conhecia perfeitamente os locais onde as passagem seriam fáceis, pois foi educado como um príncipe egípcio em todas as suas formas, inclusive com conhecimentos geográficos e militares.

Tudo isso não passa de uma lenda, verdadeiramente admirável como tal, porém inadmissível como acontecimento real, pois, uma travessia de cerca de três milhões de retirantes, com seus rebanhos de ovelhas, jumentos e bois, animais estes de andar moroso, suas bagagens, por mínimas que fossem, reservas de alimentos, milhares de crianças, demandaria dias para se processar.

Segundo a descrição bíblica, o mar se abriu para a passagem daquela multidão no momento em que se aperceberam que tropas egípcias se aproximavam em sua perseguição.

Com a morte de Moisés, termina a mais emocionante fase da história dos judeus.

A Igreja Católica Romana e a Bíblia

A Bíblia adotada pela Igreja Romana foi dividida em quarenta e cinco Livros para o Antigo Testamento e vinte e sete para o Novo. Destes Livros, que foram confirmados pelos diversos concílios: Hiponense, Florentino, Tridentino e Vaticano, a Igreja extrai parte da sua doutrina dogmática e moral, como sejam: as verdades em que se deve crer e as instruções para a conduta dos crentes, desde que não entrem em desacordo com seus cânones.

“Redigidos por escritores muito diferentes, esses livros são, por seu conteúdo, por seu estilo e composição, de uma grande diversidade. Alguns são de fácil leitura, outros escapam, sem explicações ou notas, à compreensão do "grande público".

A Bíblia não é um livro de uma época. Certas partes foram escritas no tempo de Moisés, XIII séc. AC; outras, as últimas, no fim do 1° século da nossa era: os Evangelhos e o Apocalipse, este atribuído ao apóstolo João.

Com o tempo, certos ritos e certas preces se modificaram, porque a liturgia evoluiu. Mas nessa evolução a Igreja não pôde trair ou deformar a palavra de Deus, porque ela não consegue, a esse respeito, senão uma fonte: a Bíblia, que é o repositório sagrado, escoimado, porém, das interpretações que não lhe interessavam na formação da nova religião e do que poderia conflitar com o rigor das tradições judaicas.

Partes importantes do Antigo Testamento foram revogadas pela Igreja, principalmente no que toca a adoração de ídolos, hoje a parte mais relevante do Catolicismo Romano, e a mais auspiciadora fonte de recursos materiais.

“Afirmar que a Bíblia tem Deus por autor”, não quer dizer que os profetas, os evangelistas e o salmista não escreveram seus livros e que eles não lhes imprimiram seu cunho próprio, seu estilo e seu temperamento, bem como suas próprias interpretações, ou fantasias”, dizem.

“Mas eles escreveram sob a inspiração divina, e foram apenas intermediários, os instrumentos da transcrição do Pensamento e da Palavra de Deus”, assim querem impor, também.

“Deus fala pelas escrituras”, dizia Ambrósio, santo proeminente dos católicos.

“Cada palavra da Sagrada Escritura, é como uma trombeta que faz ressoar nas orelhas do crente a grande voz de Deus”, disse Jerônimo, também santo da Igreja.

“Do Gênesis aos Evangelhos, a Bíblia celebra Cristo”, dizem os cristãos. “Será errado supor que o Antigo Testamento não é uma obra cristã. Numerosas páginas ali celebram, às vezes com a emoção da espera, a vinda do Cristo”, embora, a rigor, nada ali existe que claramente possa se referir a Jesus. ( Bíblia Livros do Brasil S/A).

Para atualização da divisão da Bíblia, foi convocado o Concílio de Trento, pelo Papa Paulo III, para o ano de 1537. As seções preparatórias foram tumultuadas e o Concílio foi transferido para 1538, em Vicenza. Ainda não se conseguiu chegar a um acordo, e foi novamente transferido para 1541. Ainda sem sucesso. Somente em 13 de dezembro de 1545, foi possível a sua realização, vencidas as resistências dos seus membros.

Certas seitas bíblicas procuram aceitar seus ensinamentos e seguir seus preceitos, no entanto, interpretando-a à sua maneira, distorcendo o seu sentido, fazendo desse cumprimento uma miscelânea que poderia ser classificada de herética pelas demais.

Cada seita cristã argumenta que as demais são falsas, numa troca de diatribes que, para um observador independente, seu julgamento será de que todas, verdadeiramente, são falsas.

A posse da Bíblia, ou a sua leitura, até época recente, era proibida para os católicos. Suas traduções para diversos idiomas sofreram alterações apreciáveis. Do hebraico, ou do aramáico para o grego, ou deste para o latim, o tradutor encontraria sérias dificuldades em razão de alguns termos ou expressões, inerentes a uma língua, serem quase intraduzíveis para outra.

Ptolomeu II, desejando que a Biblioteca de Alexandria fosse completa em seu acervo, convocou, de cada uma das tribos de Israel, seis sábios teólogos, para que reunissem o maior número possível de escritos bíblicos, antigos e recentes, e os traduzissem para o grego. Só por volta de 130 A.C. o trabalho foi dado por completo, e essa versão passou a ser denominada de "Septuaginta".

Os primeiros sacerdotes do cristianismo não eram versados em grego, e faziam suas pregações com poucas referências a certas partes do Antigo Testamento, já que as traduções latinas eram raras, escritas em pergaminho, de dificílima aquisição e, às vezes com interpretações difíceis para suas poucas instruções.

Com a implantação do cristianismo como religião oficial do Império Romano, por Teodósio I, o Papa da época, Dâmaso, confiou a tradução das Escrituras, do grego para o latim, ao teólogo Sophronius Euzebius Hieronimos, ( o São Jerônimo da Igreja) pois havia necessidade urgente da sua tradução para difusão entre os povos bárbaros, quando das conquistas dos exércitos romanos, agora, sempre acompanhados de sacerdotes que faziam suas catequeses apoiadas nas espadas e nas lanças romanas. Esse apoio militar na implantação do cristianismo foi tão eficiente que, séculos depois, adotado pela Inquisição, foi apoiado por reis e imperadores, levando o cristianismo a todo o mundo ocidental, dominado, agora, por um atavismo histórico.

Nas regiões onde os exércitos romanos não atuaram, o cristianismo é quase inexistente, e, para bem desses povos que não sofreram os horrores da Inquisição e das espoliações da Igreja Católica.

A difusão do cristianismo, foi portanto, um acontecimento geográfico. Onde houve a influência das conquistas de Roma, ele se implantou, a ferro e fogo. Aqueles que nasceram nessas paragens não tinham outra alternativa, senão serem cristãos. Os que nasceram onde não houve influência de Roma, desconhecem quase que completamente o cristianismo, Jesus e a Bíblia judaica, tendo outras filosofias religiosas.

O manuseio da Bíblia, e sua leitura não era de fácil compreensão para um clero católico em expansão, quando seus padres e frades eram, geralmente, iletrados, escolhidos quase sempre por influências políticas ou paternalistas, tanto pela Igreja, quanto pelos Barões e Imperadores.

Para facilitar sua compreensão, seu conteúdo foi ordenado em "capítulos" e "versículos" no ano 1.214 pelo Arcebispo Estevão Langton, no entanto, a numeração dos seus livros permanece diferente entre judeus e cristãos. (Enciclop.Tudo, fl.773).

A Igreja Católica tinha absoluta exclusividade para a tradução, divulgação e impressão da Bíblia, sendo a sua posse proibida tão rigorosamente que, centenas de pessoas foram queimadas nas fogueiras da Inquisição, como hereges, pelo simples fato de a possuírem, ou mesmo de a terem lido.

Por haver traduzido a Bíblia para o inglês, Wylliam Tyndale, em l536, foi preso, torturado, julgado como herege e queimado numa fogueira pela Inquisição da Igreja Católica, com a aprovação de Sua Santidade (!), o Papa Paulo III.

Com a vulgarização da Bíblia, surgiram as contestações inevitáveis. A parte mais culta da sociedade, literatos, historiadores, juristas e outros estudiosos, passaram a ver que aquela "palavra de Deus" não passava de literatura sobre a história de um povo, eivada de contos sobre guerras, crimes, mentiras, adultérios e roubos, praticados justamente pelos seus mais proeminentes patriarcas, história que, aliás, nunca teve atuação relevante no concerto das demais nações.

Muitas seitas não concordam com determinados livros, achando-os, portanto, como não sendo ditados por Deus. Aí surgem as dissenções para se saber a qual facção Deus dá o seu apoio. Dessa inglória discussão, aproveitam-se os agnósticos para provarem que as religiões são feitas para exploração e espoliação do povo, nada tendo a ver com quaisquer divindades, muito menos com o desejo de salvar almas.

Entre os livros não aceitos por apreciável parte das subdivisões do cristianismo estão: Judite, Tobias, I e II Macabeus, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico. Porque estes não foram tidos como ditados pelo Deus dos cristãos? Teriam sido ditados por Deus: Ruth, Esther, Isaias, Miquéias, ou Malaquias?

De onde vem essa convicção que separa os cristãos fazendo com que se odeiem satiricamente, se entredevorando em sangrentas lutas, tais como acontecem atualmente na Irlanda ou já aconteceram na Noite de São Bartolomeu, quando milhares de “protestantes” foram trucidados traiçoeiramente pelo conluio da Rainha Catarina de Médices com o Papa da época?

Na Bíblia de Jerusalém, fl. 26, consta o seguinte comentário sobre os cinco primeiros livros do Antigo Testamento: "Eles foram revisados, receberam complementos, foram enfim combinados entre si para formarem o Pentateuco que conhecemos".

Se a Bíblia foi ditada por Deus, teria ele sido prolixo ou incompetente, para ter sua redação corrigida e modificada por suas criaturas?

Os "Racionalistas" afirmam que: "É muito mais fácil crer que as profecias foram escritas depois do seu cumprimento, do que aceitá-las como genuínas. Preferem invalidar os relatos bíblicos dos milagres, por classificá-los de mitos, lendas, ou folclore, a considerar a possibilidade de que realmente aconteceram". (A Bíblia - Palavra de Deus ou dos homens- fl. 43).

Outras igrejas e a Bíblia

Uma publicação da Igreja Unida do Canadá (The Junior Teacher's Guide, 1964, pag. 4) chama os onze primeiros capítulos do Gênesis de mito, e um novo catecismo católico (Daily Star, de Toronto, 14/10/67), diz que os mesmos capítulos são "na maior parte poesia e lenda".

Der Spiegel, de 16/08/1961, diz: "Para diversos professores de Teologia, seu entendimento crítico transformou as Escrituras Sagradas numa coleção de mitos, símbolos, contos da carochinha, poesia e ilustrações".

Nos Estados Unidos, o ramo principal de Igreja Presbiteriana anunciou que não considera a Bíblia como inerrante. (Time, NY- 25/05/66).

Um artigo também na revista Time, (4/02/66, fl. 75) fala de um teólogo metodista, conservador, que ensina aos estudantes da Faculdade Estadual de Michigan, que "a Bíblia é a maior coleção de mitologia da história da civilização ocidental".

Assim como as religiões greco-romanas, assírias, egípcias, e outras, são hoje consideradas como mitologias, como serão consideradas, num futuro distante, as centenas de seitas cristãs com suas centenas de milhares de santos, santas e ídolos milagreiros?

Pentateuco

Os cinco primeiros Livros da Bíblia são designados, pelos judeus, a Lei, ou Torá. Receberam a denominação de Pentateuco em razão da necessidade de se dividir o seu texto em cinco rolos, ou livros, para maior facilidade do seu manuseio, recebendo o nome de origem grega, (PentateucoV) após sua tradução para essa língua. Os judeus de língua hebraica, porém, o chamam de "Os cinco quintos da Lei".

Compõe-no:

1) Gênesis: que explica a origem do mundo.

2) Êxodo: que começa com a expulsão dos hebreus do Egito (Ex. 12:38).

3) Levítico: é um conjunto de leis de diversas origens e civilizações para serem aplicadas ao povo que se retirava do Egito, em sua peregrinação pelos desertos em busca de uma terra onde se pudessem fixar.

4) Números: recenseamento do povo.

5) Deuteronômio: consolidação das Leis.

“A composição desta vasta coletânea era atribuída a Moisés, pelo menos desde o começo da nossa era, aceita por Cristo e pelos Evangelistas. Mas as tradições mais antigas jamais haviam afirmado explicitamente que Moisés tivesse sido o redator de todo o Pentateuco, conjunto de prescrições só admitidas com a participação de eruditos e legisladores, qualidades que certamente não se enquadrariam em Moisés”.

O estudo moderno apresenta diferenças de estilo, repetições e desordens nos relatos, que recusam sua autoria como saída da mão de um mesmo autor. Estudos de sábios afirmam que essa composição se origina de quatro documentos, diferentes pela idade e pelo ambiente de origem, mas todos eles, muito posteriores a Moisés. (Bíblia de Jerusalém).

O Deuteronômio seria reunido depois de Josias. Depois do exílio, o Código Sacerdotal, que continha Leis e algumas narrações, teria sido somado a essa compilação, à qual serviu de arcabouço e moldura.

A descoberta das literaturas mortas do Oriente Médio e os progressos feitos pela arqueologia e pela história das civilizações vizinhas de Israel, mostram que muitas leis e instituições do Pentateuco tinham paralelos extra-bíblicos bem anteriores às datas atribuídas aos "documentos" e que numerosos relatos supõem um ambiente diferente e mais antigo daquele em que teriam sido redigidos. Vários elementos tradicionais eram conservados nos santuários ou eram transmitidos pelos narradores populares. Foram agrupados em ciclos e depois postos por escrito sob a pressão de um ambiente ou pela mão de uma personalidade dominante.

“Elas foram revisadas, receberam complementos, foram enfim combinados entre si para formar o Pentateuco. As fontes escritas do Pentateuco são momentos privilegiados de uma longa evolução, são pontos de cristalização nas correntes de tradição que se originam mais acima e que, em seguida, continuam seu fluxo. A pluralidade dessas correntes de tradição é um fato evidenciado pelos duplicados, repetições e discordâncias que chamam a atenção desde as primeiras páginas do Gênesis”. (Bibl. Jer.pg.26).

O Pentateuco é a base da religião histórica de Israel e fundamenta-se na pseudo-revelação do seu deus a determinados homens, em determinados lugares e circunstâncias, e nas pseudo-intervenções do mesmo em todos os assuntos, quer familiares ou sociais, e nas conquistas territoriais.

O Deus de Israel (Num. 21:14) tinha, até, um Livro das Guerras. O seu relacionamento com o povo era estabelecido por pactos bilaterais: Deus se comprometia a fazer determinadas tarefas recebendo retribuições. Deus era humanizado e procedia como qualquer chefe de comunidade.

Certas horas se lembrava (Gen. 9:15) "Então me lembrei do meu conserto, que está entre mim e vós... - (Ex. 2:24) : "E ouviu Deus o seu gemido e lembrou-se Deus do seu conserto"... e (6:5: -E também tenho ouvido os gemidos dos filhos de Israel, aos quais os egípcios fazem servir, e me lembrei do meu conserto, donde se deduz que era sujeito a esquecimentos.

Travava longas discussões com humanos (Gen. 18:23/33: Abraão intercede pelos homens de Sodoma e Gomorra e Deus argumenta com ele.

Fazia perguntas, demonstrando desconhecimentos. (Num. 22:9): A Balaão: Quem são esses homens que estão contigo?

Fazia reclamações como qualquer queixoso (Num. 14:11): Até quando me provocará este povo? e até quando me não crerão por todos os sinais que fiz no meio deles?

Fazia juramentos para se fazer acreditado (Gen. 26:3): ...e confirmarei o juramento que tenho jurado a Abraão teu pai.

Pedia autorização para realizar algo (Ex. 32:10): Agora pois deixa-me que o meu furor se acenda contra eles, e os consuma: e eu te farei uma grande nação.

Falava com humanos pessoalmente (Ex. 33:11): E falava o Senhor cara a cara, como qualquer fala com o seu amigo... e conversava "boca a boca" (Num. 12:8): Boca a boca falo com ele, e de vista, e não por figuras...

Outra hora se desmente (Ex. 33:20): Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá.

Em Números, 13:1/33, desconhece a terra que "daria" aos hebreus, pois recomenda a Moisés que mande espiões para verem: “que terra era, o povo que nela habitava; se é forte ou fraco; se pouco ou muito”.

Segundo Fabre D'Olivet, (Histoire Philosophique du genre humain), os dez primeiros capítulos do Gênesis são tradições egípcias, razão para ser aceitável, pelo menos em parte, sua autoria por Moisés, ou por sua interferência. Entre todos os povos antigos havia "estórias da criação", tanto entre os persas, como babilônios, e mesmo, entre os cananeus. Constituiriam a base para a narrativa bíblica?

O principal mito babilônico da criação diz que, durante uma insurreição entre os deuses, o deus Marduque tomou a deusa Tiamate e a partiu em duas partes. Metade dela tornou-se a Terra e a outra metade, o Céu. Os deuses formaram a humanidade com as partes de outro deus que fôra executado. (Ancient Near Texts, de Pritchard, pgs. 67/68).

As duas ilustrações mostram a presença da “Árvore da Vida” já entre os egípcios e os babilônios, muito antes da existência de Moisés, a quem é atribuído o Gênesis.

Interpretação da Bíblia

Cada seita cristã, ou melhor, cada apostasia do judaísmo que diz ter se fundamentado nas Sagradas Escrituras, ou no Antigo Testamento, tem o seu modo especial de interpretá-las.

Tanto o Antigo, como o Novo Testamento, tem centenas de traduções, em diversos idiomas, que se apresentam sem homogeneidade, dando origem a interpretações que não se harmonizam com a finalidade da sua existência, até distorcendo, às vezes, sua correta interpretação.

Dar-se ao seu conteúdo uma origem divina já não é mais aceito passivamente, pois, desde quando se observou que as interpretações que chegavam ao povo não passavam de mistificações para levá-lo, como um dócil rebanho, a aceitar somente os conceitos que o escravizavam e o mantinham sempre humilhado e prostrado ante o temor de um já desacreditado Satanás, com o seu reino infernal, em antítese ao paraíso celestial, reino de Deus.

Já não é mais possível a aceitação das lições inoculadas no povo pela "Santa Inquisição", quando se dizia incessantemente, através dos púlpitos, ou dos confissionários o preceito de remota época:

"Todo homem tem o desejo de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros, mas se descuida de si mesmo. Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado se com isso não viveres mais santamente." (Thomás de Kempis - Livro I, cap. II - Imitação de Cristo - 1427).

Até a segunda década deste século, quando radio e televisão eram praticamente inexistentes, ou de difícil acesso ao povão, e a imprensa censurada pelo falso respeito às instituições eclesiásticas, e ao atávico temor dos castigos celestes, e das excomunhões, era isso que se nos ensinavam nos seminários e nas Igrejas.

Da Bíblia só se conhecia o que era ensinado através das "Histórias Sagradas” nos estabelecimentos de ensino para jovens, ensino esse já escoimado de interpretações que pudessem levantar dúvidas sobre fatos pouco edificantes ali existentes ou narrados. A leitura da Bíblia, bem como a sua posse, era proibida sob a falsa alegação de que somente os padres podiam interpretar seu sentido divino. Durante a Idade Média a simples posse de uma Bíblia era crime passível de pena de morte na fogueira da Inquisição da Igreja Católica.

Como se alguém que quisesse escrever a biografia de um herói:- todos os seus atos são grandiosos e altruísticos. Nenhum fato que o pudesse deslustrar seria relatado e explicado literalmente.

Um grande e sanguinário ditador deste século poderá ter duas biografias. Seus admiradores enaltecerão seus atos, apresentando-o como um humanista que desejasse purificar a raça humana, eliminando todos aqueles que considerasse fora dos moldes arianos.

Seus opositores mostrá-lo-iam como um criminoso genocida, megalomaníaco, responsável por dezenas de milhões de mortes, tanto nos campos de batalha, como nos campos de concentração, onde homens, mulheres e crianças eram privados de alimentação, reduzindo-se a patéticos esqueletos vivos.

Para os adultos, o ensino da religião se limitava ao que era pregado dos púlpitos.

Assim são também as religiões. Mahatma Gandhi disse: "os maiores crimes da humanidade são praticados em nome da religião". A Bíblia que é simplesmente a história de um povo, suas lutas, seus altos e baixos como nação subdesenvolvida, fala, inclusive, da sua religiosidade, que, aliás, é inerente a qualquer história de qualquer povo, sem, contudo, ser um tratado exclusivamente religioso.

Se a sua finalidade fosse somente o aperfeiçoamento espiritual, estaria escoimada da metade do seu conteúdo, que apresenta um povo arrogante, ignorante, bárbaro, desonesto, sanguinário e cruel com aqueles que tiveram a infelicidade de terem estado em seu caminho.

Os seus "patriarcas" são apresentados como beneficiários de uma promessa divina que sempre falhou e nunca foi cumprida. Portanto, não mencionam que esses relatos são inverossímeis e destituídos de credibilidade, fazendo deles um dever de crença, mais pela fé do que pela possibilidade de serem cumpridos. Oferecer a alguém algo que já pertence a outro, é crime, e só seria aceitável como se fosse para enganar a uma criança a quem se oferecesse uma guloseima para obter sua obediência. Porque falsear o raciocínio para enganar um povo sem cultura, de pastores nômades, quando não era lícito, perante as leis, dar uma terra que já tinha dono, sem qualquer compromisso de compra e venda? Mesmo o Deus de Abraão não tinha o direito de fazer qualquer doação através de uma espoliação criminosa.

Apesar das dezenas de deuses da Babilônia, Suméria, Caldeia e outros povos, inventou-se um novo Deus, exclusivo para Abraão e seus descendentes, com a diferença de que o novo deus era pródigo em promessas unilaterais. Oferecia mais do que exigia, acenando a Abraão com uma descendência como as estrelas do céu ou como as areias do mar, no entanto as suas mulheres eram, quase sempre estéreis.

Prometeu-lhe terras e riquezas, mas, na realidade, só deu a seus descendentes, escravidão, pobreza e humilhações:

8 anos na Mesopotâmia; l8 anos entre os moabitas; 20 anos entre os cananeus;

7 anos entre os midianitas; 18 anos entre os filisteus, depois, mais 40 anos;

70 anos na Babilônia.

Dos egípcios foram escravos durante 430 anos, isso sem contar as destruições das suas cidades em ininterruptos conflitos com povos vizinhos, que nunca se conformaram com sua vizinhança indesejável.

No ano 4 AC os romanos crucificam 2.000 judeus por rebelião.

No ano 35, Pilatos massacra judeus em Garizim. - Em 49 o Imperador Cláudio expulsa os judeus de Roma. - Em 63 Pompeu conquista toda a Palestina, subjugando os judeus.

Em épocas posteriores foram dominados pelos gregos, desde Alexandre, que tentaram inutilmente transmitir-lhes sua civilização. Depois vieram os romanos desde o ano 63 A.C. até o ano 70, da nossa era, quando, cansados de enfrentar seguidas rebeliões, resolveram destruir, de vez, toda a nação judaica, com destruição total de Jerusalém e do Templo, exilando todo o povo para outros países.

Depos do ano 381, quando o Imperador Teodósio fez do cristianismo religião oficial do Império sob o pomposo nome de Igreja Católica Apostólica Romana, os judeus viram contra si a mais desenfreada perseguição, agora religiosa, e não mais política. Os povos que dominaram os judeus em épocas passadas, quando os assassinavam, faziam-no como soldados em guerra: a fio de espada. Com o advento do catolicismo, surgiram os castigos humilhantes, interrogatórios sob as mais terríveis torturas e queima em fogueiras, tudo isso sob a alegação hipócrita do desejo de salvar suas almas.

Papas se empenhavam junto a monárcas para expulsão de judeus dos seus territórios, depois de expropriar-lhes os bens.

Citaremos alguns, ao acaso:

Em 695, expulsos da Espanha - Papa Sérgio I. Em 1182 e 1305, expulsos da França - Papas Lúcio III e Clemente V. Em 1342, da Alemanha - Papa Clemente VI. Em 1471 e seguintes, na Espanha Papa Sisto IV, protetor de Torquemada, o mais cruel dos Inquisidores da Igreja. Em 1487 e 1497, de Portugal - Papas Inocêncio VIII e Alexandre VI, sendo este considerado o mais corrupto dos Papas.. Em l503, da Alemanha - Papa Júlio II. Em 1534, de Portugal - Papa Paulo III.

Terminada a perseguição a partir da Revolução Francesa, o povo dileto e escolhido ainda não conseguiu ver realizadas as dezenas de promessas do seu Deus. No início do século XX sugem novas ideologias contra os judeus: o fascismo e o nazismo que eliminaram dezenas de milhões de inocentes, talvez por um atavismo de cunho religioso

Somente em l947 o povo judeu conseguiu, através de nova espoliação pelas nações que venceram a 2ª Guerra, voltar para a Palestina, desalojando os seus legítimos habitantes e se estabelecendo na terra que o Deus de Abraão lhe havia prometido. Teria o seu Deus só agora cumprido a promessa, feita a mais de três mil anos, por intermédio de messias ingleses e americanos?

O Deus de Abraão acenou-lhe com uma terra que já tinha dono, onde não havia fartura de água e muito menos de mel. Os seus conhecimentos geográficos, embora fosse ele sapientíssimo, conhecedor do passado, do presente e do futuro, eram limitados exclusivamente àquele reduzido espaço das imediações da Palestina, do contrário ter-lhes ia dado terras do outro lado do mar, onde caudalosos rios serpenteavam entre florestas tropicais, verdadeiros mananciais, simbolicamente de leite e mel.

Para o Novo Testamento, as interpretações continuam, sempre, ambíguas e falsificadas. Os seus escritores escreveram "oito", os seus ministros ensinam "oitenta", afirmando que tudo é mistério divino e insondável. Seus escritores contaram, baseados em lendas e interpretações sectárias, a desconhecida vida de mais um profeta, entre centenas dos que proliferaram nas épocas em que o povo se encontrava subjugado por conquistadores estrangeiros. Sob o domínio romano surgiram vários "messias", entre eles, Teudas, citado em Atos, 5:36, ao qual seguiram mais de quatrocentos prosélitos, todos eliminados por diversos meios, inclusive crucifixão. Em 5:37, menciona outro que se dizia "messias" e que salvaria Israel, de nome Judas, o Galileu, compatriota de Jesus, e que, também, arrastou grande multidão de adeptos, sendo todos eliminados pelos romanos.

Também a decantada rainha de Sabá, nos tempos de Salomão (Lucas, ll:31), foi dada como reformadora, opondo-se aos maus costumes daquela geração.

" Os manuscritos do Mar Morto, encontrados em l927, contam que sessenta e cinco anos antes do nascimento de Jesus, "um mestre da retidão" morreu martirizado sob o governo de Aristóbolo II. Esse profeta fôra membro ou mesmo chefe da seita dos "essênios” e, provavelmente um predecessor de Jesus. (O Vale dos Reis - Otto Neubert - fl. 327).

"Por meio de Josefo ficamos sabendo que, no primeiro século, antes da destruição do Templo (ano 70), surgiram vários "messias", que prometiam o alívio do jugo romano, e encontraram prontos seguidores.(The Jewish Enciclopédia, vol. 10, pg. 251).

No ano 132, Barcocheba (Bar Koziba), um dos mais destacados dos pseudo-messias, foi saudado como o Messias-rei. Ao esmagarem a revolta por ele dirigida, os soldados romanos mataram milhares de judeus. Cria-se que Barcocheba descendesse de David, o que o teria ajudado em suas pretensões messiânicas.

Entre tais pretendentes a "messias" achava-se Moisés de Creta; esse asseverou que dividiria o mar entre Creta e a Palestina. Outro "messias" foi Sereno, que desencaminhou muitos judeus na Espanha. "The Jewish Enciclopédia" alista 28 falsos "messias" entre 132 e 1744 EC. (Ajuda ao entendimento da Bíblia, fl. 1106).

De todos os "messias" talvez tenha sido Jesus o mais pacato e, se não fosse a intervenção de Paulo, apóstata do judaísmo, de onde foi proeminente membro, o cristianismo talvez não ultrapassasse os limites da Galiléia.

O Messias, ou o Cristo (ungido, em grego), poderia ter sido, tanto Judas, o Galileu, como Barcocheba, ou outro entre as dezenas, se tivessem encontrado um Paulo de Tarso que o transformasse em Filho de Deus.

(O verdadeiro Messias - Ver capítulo 27)

A Verdade e sua época

“Os crimes mais cruentos de que a história tem
registro foram cometidos sob o manto da religião”.
Mahatma Gandhi

A pesquisa e a observação procuram conhecer o que pode ser uma verdade relativa, em razão do espaço e do tempo. Pode ser realista quando o conhecimento já está dado pela natureza, bastando descobri-la; ou idealista, quando é oferecida ao espírito pela fé. Passa, então, a ter um sentido objetivo, partindo do subjetivo.

A respiração ocorre a nível celular, onde o oxigênio trazido aos pulmões pela corrente sangüínea é trocado por dióxido de carbono. O idealista, na Idade Média, ensinava que a respiração era o sopro divino que Deus inspirou em Adão.

O que era verdade ontem, hoje já pode não o ser mais. A Bíblia e a lenda ensinam que Abraão recebeu da sua mulher uma escrava para dar-lhe descendência, em razão de ser ela estéril. Hoje, isso seria inadmissível.

Desde Aristóteles até Copérnico a verdade era ser a terra o centro do Universo, fixa no espaço. O sol, a lua e as estrelas giravam independentes ao seu redor. Era uma verdade indiscutível que tinha a absoluta aprovação das Sagradas Escrituras. Aristarco (310-230 AC), ao contradizer essa teoria, baseado em estudos astronômicos, foi tido como herege no seu tempo.

Galileu, como Copérnico, ensinava que o sol é que era fixo e a terra era que girava ao seu redor. Isso contrariava uma menção bíblica mencionada em Josué 10:13, em que este disse, à frente do seu exército: "detém-te, sol, sobre Gibeon, e tu, lua, no vale de Ajalon! E o sol se deteve no meio do céu, e não se apressou a por-se, quase um dia inteiro". Em conseqüência, a Igreja Romana, através da Santa Inquisição, moveu processo contra o astrônomo. Consta ter sido nomeado seu defensor o Cardeal Carlos de Médici, cuja notícia foi recebida pelo Tribunal da Inquisição com o seguinte comentário: "Se o alto prelado quiser vir, que venha; mas que se faça acompanhar pelo menor número possível de letrados, porque, não digo que sejam daninhas (as teorias de Galileu), mas dão poucos frutos e são perigosas sem dúvida".

Nessa época, 1619 a 1620, aparece em cena um membro do Santo Ofício, Frei Caccini, que declara: "Se não fosse a proteção do Grão Duque de Toscana, aquele matemático herético já estaria há muito a apodrecer nos cárceres do Santo Ofício".

A Sagrada Congregação do Índice, órgão da Inquisição, afirmava que as declarações de Galileu eram absolutamente repugnantes às Sagradas Escrituras. Noutra passagem do processo, escreve o Padre Maculano: "... deduz-se a necessidade de maior rigor na justiça, e de menos consideração a respeito do acusado, do que se tiveram até agora, neste assunto". Maior rigor na justiça significava a "tortura" para Galileu, nessa data com 69 anos de idade.

Havia entre os membros da Inquisição uma irrequieta expectativa para ver-se o insigne astrônomo levado ao tronco dos sacrifícios. A tortura era dotada de requintes meticulosamente medidos, para que o réu suportasse, com vida, todas as fases de que era revestido o cerimonial. Era um espetáculo disputadíssimo, como os circos romanos ou as touradas e corridas de bigas.

Inicia-se o espetáculo com um interrogatório preparado de tal maneira, que todas as respostas incriminavam a vítima. Seguia-se o espetamento de varetas sob as unhas que levavam sistematicamente a vítima à perda dos sentidos. Era, então, reanimada com jatos de água fria. Procedia-se, então, a extração das unhas, seguida de novo desmaio. Vinham, sucessivamente: ablação da língua, dos olhos, distenção dos membros que chegavam a se desligar do corpo. A série era quase infinita, havendo especialistas para as suas descobertas. Havia a constante preocupação de evitar a morte do supliciado, que deveria ir com vida à apoteose do espetáculo: a fogueira. Era isso que se desejava para Galileu.

Galileu, na manhã de 22 de junho de 1663, quarta feira, é conduzido sobre uma mula, ridiculamente ajaezada, de propriedade da Inquisição, como um palhaço, à sala do convento Dominicano de Santa Maria.

Aí está reunido o Conselho da Santa Inquisição. Fazem parte do júri os seguintes Cardeais Membros do Santo Ofício: Gaspar Bórgia, Felice Sentino d'Ascoli, Guido de Santa Maria del Popolo, Desidério Scaglia de Cremona, Antônio Barberino de Santo Onofre, Laudívio Zacchia, Berlingero, Fabrício de São Lourenço e os diáconos: Francesco Barberino e Martio de Santa Maria, como escrivães.

Esses membros da Inquisição julgaram Galileu, de setenta anos e tendo como ponto básico da heresia: "Ensinado que o sol seja o centro do mundo e imóvel, e que a terra se movia, também, em movimento diurno".

Consta da condenação:

"Dizemos, pronunciamos e declaramos que tu, Galileu, pelas coisas deduzidas em processo, e por ti confessadas como acima, vieste a este Santo Ofício, veementemente suspeito de heresia, isto é, de ter acreditado e mantido doutrinas falsas e contrárias às Sagradas e Divinas Escrituras, que o Sol seja centro do Universo e que a Terra se move de oriente para ocidente e, que ela, a Terra, não seja o centro do mundo..."

Galileu ia ser queimado vivo, porém, apresentaram-lhe a chance de ser poupado à fogueira se fizesse abjuração das suas idéias.

Galileu ante os juizes, ajoelhado, envergando a camisa branca dos penitentes, escuta, imóvel, sem pestanejar, a longa acusação.

A ABJURAÇÃO DE GALILEU

Terminada a acusação, de joelhos ante os Cardeais da Igreja Romana, com a mão direita sobre a Bíblia, lê a sua retratação:

"Eu, Galileu Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, com setenta anos de idade, tendo sido trazido pessoalmente ao julgamento, e, ajoelhando-me diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais Inquisidores-Gerais da Comunidade Cristã Universal contra a depravação herética, tendo frente a meus olhos os Santos Evangelhos, que toco com minhas próprias mãos, juro que sempre acreditei e, com auxílio de Deus, acreditarei de futuro em cada artigo que a Sagrada Igreja Católica, Apostólica de Roma sustenta, ensina e prega. Mas porque este Sagrado Ofício ordenou-me que abandonasse completamente a falsa opinião, a qual sustenta que o Sol é o centro do mundo e imóvel, e proíbe abraçar, defender ou ensinar de qualquer modo a dita falsa doutrina. Eu desejo remover da mente de Vossas Eminências e da de cada Católico Cristão esta suspeita corretamente concebida contra mim; portanto, com sinceridade de coração e verdadeira fé, ABJURO, MALDIGO e DETESTO os ditos erros e heresias, e em geral todos os outros erros e seitas contrárias à dita Santa Igreja, e eu juro que nunca mais no futuro direi ou afirmarei nada, verbalmente ou por escrito, que possa levantar semelhante suspeita contra mim."


A sentença e a abjuração foram afixadas em todas as Igrejas da cristandade e nas Universidades. Os "eminentíssimos e reverendíssimos Senhores Inquisidores são convidados a enviar confirmação escrita ao Santo Ofício".

Era Papa Urbano VIII, ex-cardeal Maffeu Barberini, que se dizia amigo e admirador do astrônomo, com quem passava horas falando e discutindo assuntos de astronomia! Antes de se tornar Papa.

Do nascimento da Terra ao Homem

A ciência moderna, recuando sempre, e cada vez mais, para o passado, vai criando escalonamentos à medida que novas descobertas vão surgindo. Foram estabelecidas "eras" para a vida do nosso planeta, meio pelo qual a Geologia estabeleceu a sua evolução.

Fora da ciência, caminhou passo a passo a sabedoria popular, atribuindo aos fatos influências misteriosas que, fugindo à sua compreensão, eram creditadas a um poder desconhecido, poderoso e invisível a que mais tarde deram o nome de Deus, que não significava divindade, e sim, desconhecido.

O Gênesis, compilação feita por Moisés, ou a ele atribuído, foi produto de cérebros privilegiados que surgem em todas as épocas e civilizações. Os fenômenos naturais eram apresentados de maneira empírica, sem maiores explicações, que somente séculos depois foram adquirindo conotações científicas.

Antes de quatro bilhões de anos uma "extensão" gasosa ia se concentrando em forma esférica, que, por força da atração molecular, foi se condensando. Um núcleo se formou adquirindo imensa temperatura, envolto numa atmosfera densa de gases de metais volatilizados. A luz do sol não conseguia atravessar as nuvens compactas que envolviam a Terra em formação. Uma imensa penumbra se estendia, iluminada por massas incandescentes que afloravam, líquidas, de uma crosta pastosa, "era" a que foi dado o nome de Arqueozóico.

Milênios se passam e já aparecem delgadas camadas em estágio de solidificação, boiando na massa pastosa. Outros milênios se escoam e a Terra escura tem sua conformação já solidificada; sua atmosfera já é menos densa deixando filtrar os raios do sol. Seria esse o primeiro dia bíblico da criação: “Fiat lux” (“Haja luz” - Gênesis, 1:3). E houve a separação da luz das trevas. Em sua rotação em torno de um eixo, fez-se o dia e fez-se a noite.

O solo era ainda bastante quente e repelia para o alto os vapores da água que, formando nuvens imensas, devolviam à Terra, em chuvas torrenciais, numa intermitência fantástica. Outros milênios se passam e chega a época que a Bíblia chama de segundo dia da criação: as águas se localizam nas partes baixas, formando os oceanos. Rios deslizam pelas planícies vindos das montanhas de que descem encachoeirados. A Terra estava pontilhada de vulcões em erupções ininterruptas provocadas pela solidificação recente que, contraindo o exterior sólido, fazia com que a massa interna, pastosa, se precipitasse através de fendas da crosta. O "céu", como uma máquina fantástica, transformava em água os vapores que subiam da Terra, e assim, havia água por cima da expansão e água debaixo da expansão. E começou Deus a chamar a expansão de céu, diz Moisés.

O terceiro dia da criação corresponde ao período em que a Terra estava devidamente estabilizada; os rios corriam serpenteando pelas terras baixas; geleiras se formaram nos pólos e nas mais altas montanhas e as estações climáticas estavam definidas. O céu continuava encoberto por espessas nuvens porém a luz do sol conseguia atravessar, difusamente esse manto, criando condições para que do solo surgissem vegetações.

O quarto dia bíblico corresponderia ao "primário" ou "paleozóico" da Geologia. A atmosfera se tornara límpida e o sol brilhava durante o dia e a lua resplandecia no céu noturno. As estrelas, aos milhões, tauxiavam a abóbada celeste. A vida surgira no mar e alguns milênios depois, a Terra estaria povoada de pequenos anelídeos.

O mais longo "dia da criação" seria o quinto. Marcou o aparecimento de animais voadores e de grandes monstros no mar e em terra. Seria o "secundário" ou "mesozóico", que abrangeu o período de duzentos e vinte e cinco milhões até sessenta e cinco milhões de anos. Nessa "era", o "carbonífero", a Terra se cobriu de florestas. O "terciário" ou "cenozóico", entre sessenta e cinco milhões até quatro milhões de anos corresponderia ao meio dia do sexto dia da criação. As aves e os animais, em suas múltiplas espécies, seriam quase todos os mesmos que conhecemos hoje, com exceção dos que se extinguiram no decorrer dos séculos. A segunda metade desse sexto dia estaria localizado, já, no "quaternário", desde quatro milhões de anos até os dias de hoje.

Dentre todos os animais, um teve preponderância sobre os outros, não por sua força física, nem por sua estatura, mas pelo fato de ter conseguido aplicar a sua inteligência no uso das suas mãos. A partir desse instante, o "homo sapiens", o mesmo Adão bíblico, assumiu a liderança entre todos os viventes que habitavam a Terra.

Surgem as espécies viventes

Os ponteiros do cronômetro do Universo dão mais uns milhares de giros e chega-se ao período a que se deu o nome de Proterozóico.

A Taxinomia procurou ordenar toda a vida animal. Os protozoários iam surgindo, à medida que as condições o permitiam. As águas dos oceanos e dos rios se tornaram tépidas e acoitaram em seu seio as primeiras vidas comprovadas por fósseis. Isto há mais de seiscentos milhões de anos.

As primeiras geleiras surgiram no Paleozóico, período que se estendeu entre quinhentos e setenta a duzentos e oitenta milhões de anos. Dentro desse período estabeleceram-se divisões: Pré-Cambriano: aparecimento da vida nas águas. Cambriano: Os animais fósseis já existem aos milhares e seus corpos já são conhecidos. O Siluriano foi localizado a quatrocentos e quarenta milhões de anos. A fauna marinha ou aquática, já era relativamente rica e a vida, em terra, era representada por espécies de escorpiões. Os primeiros vertebrados são representados por peixes de várias espécies e surgem os primeiros insetos voadores. Na flora, aparecem as primeiras samambaias e fungos.

O Devoniano, por volta de quatrocentos milhões de anos, já com uma rica fauna marinha, vê o nascimento dos primeiros anfíbios, artrópodes como: miriápodes, centopéias, aracnídeos, crustáceos e caranguejos. Peixes couraçados, estrelas e ouriços do mar. A flora já apresenta tecido vascular.

O Carbonífero foi localizado a trezentos e quarenta e cinco milhões de anos. Caracterizou-se por árvores gigantescas, perenes e as coníferas. Foi nessa época que surgiram os primeiros tubarões, para equilibrar a crescente fauna marinha, enquanto que, em terra, surgiam os primeiros répteis.

Há duzentos e oitenta milhões de anos, surgiu a época a que se deu o nome de Permiano. Os peixes se desenvolveram em milhares de espécies. Os répteis adquirem estaturas colossais. Lagartos imensos, pesados e disformes já se entregavam às primeiras lutas pela sobrevivência.

Há uma nova cronologia geológica que recebeu o nome de Era Mesozóica e, dentro dela, três estágios: Triássico, Jurássico e Cretáceo.

O Triássico, por volta de duzentos e vinte e cinco milhões de anos viu o máximo desenvolvimento dos anfíbios e o aparecimento dos primeiros mamíferos.

O Jurássico, iniciado a cento e noventa milhões de anos vê o aparecimento de aves e répteis gigantescos. Esse período se caracterizou por grandes atividades vulcânicas que modificaram os continentes ainda de formas bem diferentes das atuais.

O Cretáceo teve início há cento e trinta milhões de anos. A flora já é bem parecida com a atual. No mar aparecem as tartarugas e animais gigantescos. Os mamíferos ainda eram de pequena estatura, porém, os répteis estavam no seu desenvolvimento máximo.

É feita nova denominação, surgindo a Era a que se deu o nome de Cenozóico, ou Terciário, que se estendeu entre sessenta e cinco a dez milhões de anos. Subdivide-se em: Eoceno, Oligoceno, Mioceno e Plioceno.

O Eoceno está compreendido entre sessenta e cinco a trinta e cinco milhões de anos. O Oligoceno entre trinta e cinco e vinte e cinco milhões. O Mioceno entre vinte e cinco e dez milhões. O Plioceno entre dez a quatro milhões. O Plistoceno entre quatro milhões a dez mil anos. O período iniciado há dez mil anos é o Holoceno ou atual.

O mundo em que vivemos

Segundo o conceito bíblico, aceito sem maiores reflexões por milhões, entre diversas raças de níveis diferentes de cultura, a formação do mundo partiu do "nada". Era simplesmente o "nada". Nem luz, nem trevas.

Parmênides, filósofo grego (535-450 AC), afirmava: "...posto que não pode ser pensado, o nada não pode existir".

Platão disse: "A discussão sobre o nada leva à conclusão de que a sua negação acarreta a impossibilidade do discurso".

A Bíblia, no Gênesis, oferece um exemplo de cosmologia criativa, nada científica. Utilizando imagens herdadas das mitologias do Oriente Antigo, Moisés (ou a fonte de que se tenham valido os escritores da Bíblia) apresentou sua teoria da criação. Quando o "nada" deixou de existir, algo tinha sido criado. Nesse momento surgiu o Tempo, seguido da primeira pulsação do cronômetro universal. O Universo, com seus sistemas, galáxias, nebulosas, poeiras cósmicas, passou a "existir".

Dessa imensidão infinita, só nos interessa esse nosso pequeno, ínfimo planeta, girando em torno de uma pequenina estrela de quinta grandeza, a que demos o nome de Sol, perdida num dos braços da Via Láctea, e por sua vez perdida na imensidão do Cosmos. A uma velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo, luzes de bilhões e bilhões de estrelas correm o éter a bilhões e bilhões de anos e ainda não chegaram à nossa Terra. A imensidão e a compreensão dessas distâncias fogem completamente ao raciocínio humano, e a estória bíblica da criação passa a ser um ingênuo conto infantil. Um nosso possível observador, postado num dos extremos da nossa Galáxia, onde se encontram o nosso Sol e a nossa Terra, numa distância de milhões de anos-luz, ao focalizar com seu telescópio em nossa direção, nada veria, a não ser um pequeníssimo ponto luminoso, que poderia ser o nosso “grandioso” Sol. Nossa Terra não impressionaria seu instrumento, porque seria impossível conhecer da sua existência! Talvez um pequenino grão de areia na imensidão do Saara possa dar uma pálida idéia da localização do nosso Sol, num recanto perdido do Universo.

Para se ter uma vaga idéia de como vivem os homens, animais e as plantas nesse minúsculo mundinho, idealizemos uma bola com dezesseis metros de diâmetro (um edifício de seis pavimentos). Nessa bola espetaremos milhares de palitinhos com alturas diferentes. Só um deles terá um centímetro de altura. Os demais serão menores. Olhando-a de certa distância, nenhuma saliência impressionará nossa vista e diremos que a bola é perfeitamente lisa! Pois esse palitinho de um centímetro representará a mais alta montanha da terra, o Himalaia. Até à metade da sua altura, meio centímetro, a vida poderá estar presente naturalmente. Se subirmos além desse estágio teremos que usar máscara de oxigênio, pois a atmosfera vai se tornando cada vez mais rarefeita e a vida impossível. A camada de ar respirável não passa de uma delgadíssima película que a cada dia se torna mais tênue em razão dos desmatamentos e do desequilíbrio provocado pela produção de gases letais por milhões de maquinismos que o homem inventou, quebrando o equilíbrio ecológico, mal sabendo que está se destruindo a médio prazo.

Pois foi esta microscópica poeira o palco escolhido pelo deus bíblico para lançar o seu "Fiat", aliás, péssimo local, numa região quase toda desértica. Teria sido muito sábio se tivesse optado pelas terras da América, onde serpenteiam rios caudalosos entre florestas tropicais.

A ciência vem abrindo novas páginas no livro da criação. De acordo com teorias científicas o Universo teve origem com uma grande explosão há cerca de dezoito ou vinte bilhões de anos. Através dos telescópios eletrônicos, descobriram-se corpos que não são estrelas, embora primeiramente julgados como tais, localizados entre dois e quinze bilhões de anos luz da nossa terra. São aos milhões, e cada um emite, em média, cem vezes mais energia que o conjunto de todos os bilhões de sóis da nossa galáxia. São os "quazares". Como se pode admitir, sem vertigem, tais maravilhas? (David Jauncey - Austrália).

A ciência abre mais uma página e descobre os "pulsares"; foram observados porque emitem um sinal de rádio que "acende e apaga", daí o nome que lhe foi dado. Admitiu-se estarem localizados dentro da nossa galáxia e não serem estrelas comuns. Para emitirem os seus sinais precisam girar, como os feixes de luz de um farol, e pulsam até trinta vezes por segundo, daí serem pequeníssimos e girarem como um pião. Supõe-se terem um diâmetro de cerca de vinte e quatro quilômetros, mas são tão densos, que uma massa de dezesseis centímetros cúbicos pesaria milhões de toneladas. (Despertai, 22-9-84),.

Em 1981 foi descoberta uma estrela azul, que recebeu o nome de R136, que é dez vezes mais quente que o nosso sol, duas mil e quinhentas vezes mais maciça, um milhão de vezes maior e milhões de vezes mais brilhante. Ante tanta grandeza, o nosso planeta poderia ser comparado ao micróbio de um micróbio de outro micróbio!

O homem, que descobre tantas maravilhas, ainda não conseguiu encontrar um tratamento para as doenças mais comuns entre os seus semelhantes!

Kant supunha que a matéria original era feita de gás e matéria cósmica. Descartes diz que partículas sujeitas a movimentos em turbilhão teriam permitido a formação dos planetas e das estrelas. Cientistas e filósofos, às centenas, apresentaram as suas teorias, surgindo assim, as ciências relacionadas com o Universo.

William A. Fowler, em "A Origem dos Elementos", diz: "No começo, os cosmólogos pensam, existiam apenas prótons e neutros. É agora possível estabelecer a cadeia complexa de reações nucleares pelas quais foram aqueles corpúsculos transformados na mistura de elementos que compõe o universo atualmente. Ter-se-iam realizado alguns desses processos durante os primeiros poucos minutos após a "criação", ao passo que outros ainda estão em plena fase de atividade no interior das estrelas."

Aristóteles admite que Deus não foi o criador do Universo, pois a matéria criada era indigna da perfeição divina. A princípio a propagação das suas idéias chegou a inquietar a Igreja, porém, Tomas de Aquino (1225-1274) deu-lhe uma interpretação de acordo com o pensamento por ela admitida.

O fato de não ser conhecida a origem cosmogônica do Universo, postas de lado todas as teorias dos nossos "sábios", chega-se à conclusão de que esses ínfimos micróbios que se dizem cientistas se apegam, naturalmente, às suas hipóteses, ora se combatendo, ora se contestando, sem conseguirem, jamais, ter o mínimo vislumbre da verdade que jamais será conhecida: a maneira como se formou o universo.

Voltaire, em seu conto "Micromegas", fala de hipotéticos habitantes de Júpiter aportados à Terra. Com seus mais de dois quilômetros de altura pisaram no Mediterrâneo, onde a água mal lhe chegava a cobrir os pés, e acharam a Terra um planeta mesquinho. Notando um barquinho boiando nas águas, tomam-no na concha da mão. Isso aconteceu em plena Idade Média, na época das Cruzadas. Vendo que o barquinho estava lotado de "homículos", estabeleceram uma conversação, quando ficaram sabendo que eram combatentes e soldados de Cristo e que se dirigiam à Terra Santa onde iriam libertar o sepulcro do Filho de Deus, que era também o mesmo Deus que havia criado o Universo. Depois de algum tempo de conversa concluíram que tais "homículos" eram gigantes de presunção e orgulho, partindo indignados de volta às suas viagens interplanetárias.

Conclui-se que "homículos" ainda existem e querem, em suas microscópicas mentes, descobrir o mistério da criação e, à sua falta, têm a insensatez de atribuí-la a algum deus...

A cosmologia se refere a tudo que podemos observar aplicado "ao nosso universo" com extensão presumivelmente homogênica e isotrópica.

Na antigüidade e na Idade Média, surgiram muitas cosmologias, variadas e imaginativas, geralmente fundamentadas na idéia de que a Terra era chata, imóvel e de que ocupava o centro do universo, circundada por esferas nas quais estavam afixadas as estrelas, o sol e a lua. Os cometas eram estrelas que se despregavam das respectivas esferas e caiam...

Em Gen. 1:17, diz a Bíblia: E Deus os fez e os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra.

O Alcorão diz que o sol e a lua "deslizam" no céu (Cap. 39:5). Isaias, em 40:22, fala no globo da terra dentro da esfera como cortina.

Essa era, também, a maneira de pensar de Aristóteles no IV século antes da era cristã e de Ptolomeu, no segundo século depois. Heráclides do Ponto, astrônomo e filósofo grego (388-315 AC) já ensinava que a terra girava em redor do seu eixo. Aristarco de Samos (310-230 AC) foi o primeiro a admitir os movimentos simultâneos de rotação e translação da Terra. Inventou um processo para calcular as distâncias da Terra à Lua e ao Sol. Devido à falta de instrumentos de precisão, estas medidas não estavam certas. O Sol seria de seis a sete vezes maior do que a Terra.

Hiparco, por volta de 128 AC, descobriu a precessão dos equinócios e fez o primeiro catálogo das estrelas. Achava que o sol tinha uma órbita circular, mas que a Terra não era o centro, o que dava origem às estações.

Ptolomeu abrangeu em sua principal obra, o Almagesto, toda a teoria conhecida, especialmente a de Hiparco, e foi considerada a teoria definitiva: a Terra era o centro planetário e o Sol e a Lua giravam em sua volta. Essa teoria era a mesma de Aristóteles e foi considerada definitiva até o aparecimento de Copérnico, que demonstrou o duplo movimento dos planetas sobre si mesmos e à volta do sol, o que veio destruir a verdade bíblica a que se referia o Gênesis e, mais tarde, Josué, 10:13, quando diz a Bíblia: "E o sol se deteve e a lua parou até que o povo se vingou dos seus inimigos".

Isaias também, II Reis 20:11 fez a sombra voltar dez graus no relógio de sol do rei Achaz. Kepler foi quem, de vez, acabou com a teoria do movimento uniforme em círculos, ao comprovar que os planetas se deslocam em órbitas elípticas, porém, só depois de Newton, com sua teoria da gravitação universal, foi que se estabeleceu um ordenamento científico à astronomia.

“Com o desenvolvimento dos instrumentos de observação, começou a ser vislumbrada a vastidão e a complexidade do sistema. Eram ainda muito rudimentares as idéias sobre a organização das estrelas em associações livres ou em constelações compactas, ou nos vários tipos de nebulosas, para que se revelasse o enigma do agrupamento de dezenas de milhares desses universos-ilhas em supersistemas tão vastos que exigem dezenas de milhões de anos para serem atravessados pela luz.” (H. P. Robertson - O Universo).

O telescópio, desde os primitivos refletores de W. Herschel, que descobriu Urano em 1721, e demonstrou o movimento do sol no espaço (1783) veio abrir as cortinas do infinito, demonstrando ser a Via Láctea um agrupamento em forma de lente, com cerca de cem bilhões de estrelas, com o Sol deslocado em direção a uma das suas bordas.

Verificou-se que a distância do sol em relação ao centro da nossa galáxia seria da ordem de vinte e seis mil anos luz. Verificou-se, ainda, que a galáxia estaria girando em torno daquele centro distante, numa velocidade tal, que faria o sol rodar em sua volta por duzentos milhões de anos.

Galáxias que ora se apresentam aos modernos telescópios, têm a formação como eram há bilhões de anos, quando a sua luz teria iniciado a sua enorme viagem até nós.

Com o desenvolvimento dos instrumentos de observação, iniciou-se o conflito Bíblia-Ciência, que levaria às fogueiras da Inquisição, esteio do catolicismo, milhares e milhares de pensadores livres. Conseguiu calar o frade Copérnico, sendo que a sua teoria heliocêntrica só foi publicada após a sua morte, em 1543.

A teoria geocêntrica era imposta como divina pela Igreja de Roma, pois tinham as concordâncias de Aristóteles e Ptolomeu e, acima deles, a da própria palavra de Deus quando deu o seu apoio a Josué. (Josué 10:13): “E o sol se deteve e a lua parou, até que o povo se vingou dos seus inimigos.”

Criação do Homem

Prometeu, um dos Titãs, achou que deveria existir um animal que pudesse dominar sobre todos os outros. Formou um homem de barro, a quem deu o nome de Epimeteu (Adão?). Deu-lhe vida e poder sobre os demais seres. Para completar a sua preponderância na terra, furtou o "Fogo" do céu e deu-o ao homem, que passou a ter um poder julgado exagerado pelos demais Deuses do Olimpo.

Para dividir o poder humano, Zeus, o Deus supremo, ordenou a Hefesto, ferreiro e Deus do fogo, que fizesse uma fêmea para o homem. E assim foi criada Pandora (Eva?) e o homem passou a ter a sua companheira, como os demais seres viventes.

A vingança de Zeus não estava completa. Não era conveniente que agisse diretamente, o que poderia descontentar outros Deuses. Fez incluir entre os pertences de Epimeteu uma caixa fechada e que não poderia ser aberta sob qualquer pretexto. Nela estavam presos todos os males e sofrimentos, ainda inexistentes. Pandora estava ciente dessa proibição, porém, não resistiu à sua curiosidade, e rompeu o selo que protegia o guardado tão recomendado. Nesse mesmo momento foram libertados "os males" e terminou a tranqüilidade do casal feito à imagem dos semi-deuses. O castigo foi desproporcional à falta da inocente mulher e, desde então o homem passou a buscar os seus alimentos com o suor do rosto e as mulheres a ter seus filhos com sofrimento e dor.

Centenas de anos depois essa lenda foi incluída na história dos judeus, como ditada pelo seu Deus, dando ao homem o nome de Adão, e à mulher o nome de Eva. Esta, como Pandora, foi responsabilizada pelos males que afligem a humanidade, onde a “caixa” foi substituída pela maçã, e Zeus, como o Deus bíblico, deu um castigo desproporcionalmente superior à falta inocentemente cometida. (Ver Cap. 45: Plágios na Bíblia).

O Homem

O homem é um primata. Faz parte da ordem dos mamíferos, eutério, pentadáctilo, plantígrado. A maioria dos primatas levam vida arborícola e noturna. Têm a face reduzida, olhos em posição frontal. Seus membros anteriores têm o cúbito e o radio muito móveis um em relação ao outro, o que permite à mão executar amplos movimentos de supinação ou pronação.

Os primatas originaram-se, possivelmente, dos insetívoros. Evoluíram segundo quatro filos que correspondem às quatro subordens: Lemuróideos, Tarsianos, Pongídeos e Hominídeos.

Os dois primeiros continuam com vida arborícola de hábitos noturnos. Os pongídeos ainda têm quatro representantes não extintos: o orangotango, o gorila, o chimpanzé e o gibão.

Os hominídeos correspondem à quarta subordem.

Acredita-se que hominídeos e pongídeos descendam de um antepassado comum, o Dryopithecus Africanus (Proconsul) que viveu no Mioceno e Plioceno de vinte e cinco milhões de anos. Sua morfologia generalizada pode constituir o ponto de partida tanto para os pongídeos como para os hominídeos.

O mais antigo hominídeo conhecido através de fósseis é o Ramapitheco, com a idade de cinco milhões de anos. Ainda há dúvida em classificá-lo como pongídeo ou hominídeo. O Homem Etiópico tem três milhões de anos.

Richar Leakey descobriu um crânio com dois milhões e seiscentos mil anos com forte semelhança com o homem moderno.

O Homo erectus passou por etapas sucessivas: o Pitecantropiano, o Neandertalóide e o Homo Sapiens. Antes do Pitecantropo, como seu antecessor, estava o Australopiteco, que foi localizado como tendo vivido em bandos de cento e cinqüenta a duzentos indivíduos, como os babuínos, para se defenderem. O Sinantropo, cujo vestígio foi encontrado em Chu-ku-tien parece ter sido o primeiro a se utilizar do fogo natural. O homem de Neandertal já sabia produzir o fogo há cerca de 300 mil anos, possuindo uma certa cultura, pois fazia abrigos de peles de animais. Viveu até trinta e cinco mil anos, e enterrava os seus mortos.

Só depois que o homem passou a produzir o fogo, pôde viver em grupos menores. Procuravam as margens dos rios e as praias, vivendo em aldeias temporárias. A vida sedentária só foi possível quando começou a desenvolver a agricultura e a domesticar alguns animais.

Somente há oito mil anos a agricultura chegou à Europa, vinda da Ásia. A esse tempo deu-se o nome de Neolítico, ou idade da pedra polida. O homem passou a construir suas casas em aldeias definitivas, fabricar vasilhames de barro e começou a fazer comércio. Os artefatos de pedra já eram requintados.

A idade do Bronze teve início há seis mil e quinhentos anos e durou até que o homem aprendeu a produzir o ferro por fundição. O ferro era conhecido milênios antes, porém, só o que provinha do espaço sideral. Os hititas sabiam produzi-lo há mil e quinhentos anos antes da era atual, mas conservavam sua obtenção sob o mais rigoroso sigilo. A primeira peça de ferro que apareceu no Egito foi presente do rei hitita Chattusil ao Faraó Ramsés II, sob a forma de uma espada e de um punhal. Somente com a derrota dos hititas a obtenção do ferro se universalizou e, lentamente, foi surgindo a metalurgia.

Adões e Evas

Se pudéssemos voltar ao passado, centenas, milhares ou milhões de anos, chegaríamos ao lugar comum, a base da árvore genealógica da espécie humana.

Não houve, certamente, um primeiro casal humano no estágio atual, conforme a lenda Bíblica.

Uma nova espécie animal foi se distinguindo dos demais quadrúpedes. Devido a conformações ambientais, surgiram, por evolução, os primitivos quadrúmanos que povoaram os continentes em suas mais diversas latitudes.

A luta pela sobrevivência fazia-se sentir de maneiras diversas. Onde a alimentação era farta e fácil, a espécie em evolução retardou seus avanços, ao contrário daqueles que habitavam regiões menos pródigas, forçados à necessidade de se valerem de engenhos, forçando o raciocínio, para a obtenção do seu sustento. Através de milênios compreendeu que o poder das suas mãos, usando objetos contundentes, se multiplicava, galgando, assim, alguns degraus na escala da evolução. A partir desse estágio, passou a dominar, não só os animais mais fracos, como aqueles que, antes, não podiam enfrentar de igual para igual, por serem mais fortes, passando da caça em grupos, para a caça individual, surgindo assim a competição, com o aperfeiçoamento da inteligência mal desperta. Não importa o nome que foi dado a esse ser primitivo que emergia da animalidade para chegar ao domínio da criação. Adão talvez, não importa o nome, pois foi desse estágio que deveria surgir a humanidade até os dias de hoje.

A Bíblia recolheu essa estória de mitos orientais. (Enc. Tudo), que desconheciam a evolução das espécies.

Arqueólogos encontraram, dos arquivos em placas de argila da Babilônia, muito antes da existência de Moisés, uma lenda sobre a criação do homem, em que se vê um casal sentado ao lado da árvore da ciência e uma prolixa serpente ali enroscada. (Jesus e Sua Doutrina. Pg. 18l).

ADÃO BABI ,- ARVORE

Darwin dizia que a aquisição de características diferentes poderia levar ao aparecimento de novas espécies, sem que, necessariamente, a espécie original desaparecesse.

Sem possuir características eminentemente religiosas, a estória da criação do homem, conforme a Bíblia, tem muita semelhança com as narrativas mesopotâmicas, egípcias e gregas.

A Bíblia, através de Moisés, ou de quem quer que seja o verdadeiro compositor do Gênesis, recolheu essa estória de mitos de outros povos.

Segundo Êxodo l;5, os descendentes de Abrahão que se refugiaram no Egito, compreendiam setenta almas, não significando isso que fosse o total de semitas que, aproveitando-se do domínio dos "hicsos", invadiram o país.

Para dominar mais facilmente o Egito, os invasores "hicsos" incentivaram a imigração de povos de diversas regiões da Palestina, nômades e inculturados pastores, sem qualquer espécie de seleção.

Foi nessa época que a lenda de Jacob o inclui entre os que se homiziaram nas terras férteis do Delta, desalojando e espoliando os nativos, que, embora já detentores de civilização milenar, eram inferiores militarmente aos invasores, não resistindo ao avanço dos seus carros de guerra, desconhecidos dos egípcios, principalmente dos cavalos.

Depois de dominarem o Egito por mais de um século, os "hicsos" foram expulsos, e os semitas restantes, escravizados barbaramente, em represália ao grande sofrimento que infligiram aos habitantes da terra, enquanto foram dominadores.

Quatro séculos depois, esses escravos foram expulsos da terra, pois não interessavam mais suas presenças e seus trabalhos: “E os egípcios apertavam ao povo, apressando-se para lançá-los da terra.” (Êxodo, 12:33)

Foi nessa ocasião que Moisés apareceu no cenário da história bíblica. Ele, ou quem quer que tenha concatenado uma história para o povo hebreu, inventando-lhe uma procedência, outorgando-lhe uma fictícia origem divina desde a criação do mundo, valendo-se de lendas já arraigadas em outras civilizações, facilmente aceitáveis para uma horda de seres ignorantes mal saídos da escravidão.

Era necessário dar-lhes um Deus, já que, escravizados durante quatrocentos anos em terra estranha, só conheciam, e muito mal, as divindades locais, pois não lhes era permitido freqüentar as solenidades nos Templos.

Os ideais de Akhenaton, da existência de um Deus único, ainda persistiam entre os cérebros mais evoluídos, mesmo sob a mais severa perseguição do clero, que muito lucrava com a infinidade de divindades, tal como atualmente são adorados nos templos milhares e milhares de divindades, sendo que algumas, sob diversos títulos, facilitando a proliferação de templos e rituais, multiplicando os lucros daqueles que vivem da exploração da credulidade do povo.

Sob o falso pretexto do interesse de salvação de almas, arquitetaram e construíram a mais pavorosa fonte de exploração material da humanidade, anestesiando-lhe a consciência.

Repare-se na fisionomia dos sacerdotes religiosos, sejam padres católicos ou ministros das seitas chamadas “protestantes, bíblicas, ou crentes”. Veja-se se têm aparência de “salvadores de almas” de brancos ou negros, de pobres ou ricos. Entre-se num desses “templos” e observe-se como é constituída sua assistência: ou granfinas que ali comparecem por decoro ou para exibir ricas vestimentas, ou o seu oposto, gente da mais humilde classe da sociedade, empregadas domésticas ou operários na mais extrema pobreza, que são espoliados com o pesado “dízimo” sobre seus ínfimos salários. Repare-se bem nas fisionomias desses exploradores da crendice popular, seja um Bispo orgulhoso e arrogante, ou um “pastor”, que revela através do seu palavreado, uma riqueza de chavões recitados como por um autômato. Veja-se se têm eles aparências humildes e caridosas, ou se são hipócritas angariadores de dinheiro fácil.

Ignorante não é só o analfabeto; o letrado que se deixa escravizar por entorpecimento de consciência, é tão, ou mais ignorante que o iletrado.

A idéia de um Ser Supremo

Houvesse algum Deus criado ou inspirado uma religião para a humanidade terrestre, certamente a sua criação se estenderia a todos os bilhões e bilhões de planetas habitados, semelhantes ao nosso, esparramados pelo infinito do Universo.

As galáxias, com seus inumeráveis sóis e planetas, habitados, alguns, por seres semelhantes, ou diferentes de nós; uns mais imperfeitos ou mais inteligentes, certamente teriam obtido de Deus o mesmo tratamento que nos dispensou. Esses habitantes teriam formatos idênticos ou diferentes do nosso, pois nada mais somos que pretensiosos e míseros bípedes limitados a viver em superfícies sempre planas, despreparados para uma vida natural como os demais seres viventes.

Esses outros seres poderiam ser trípodes, miriápodes ou gasterópodes. As atmosferas desses milhões de planetas habitados, certamente não teriam a mesma composição da nossa; poderiam nem conter oxigênio, para nós o elemento fundamental. Esses seres poderiam viver em planetas com atmosferas diferentes e, mesmo, serem apulmonados

A esses seres dos diversos mundos, teria Deus imposto as mesmas leis, os mesmos cultos e as mesmas liturgias ditadas a nós pela sua “Divina Inteligência ?”

Teriam ou poderiam esses habitantes ter praticado as mesmas distorções que praticamos, dando origem a milhares de interpretações e seitas, cada qual mais ridícula e absurda, cada qual se dizendo detentora da verdade ditada pelo Deus, talvez, “cara a cara” como consta ter acontecido a Moisés? (Êxodo, 33:11: “E falava o Senhor a Moisés cara a cara, como qualquer fala com o seu amigo”).

Teria Deus mandado para cada um desses planetas um filho “unigênito”, um Jesus Cristo ubíqüo, ou teria feito planetas habitados exclusivamente por seres perfeitos, que desconhecessem o mal ou o pecado, sendo, portanto, mais dignos da sua sabedoria divina?

Se Deus tivesse imposto ou inspirado uma religião para que fosse eternamente adorado, louvado ou adulado por suas criaturas, talvez pudesse até ser considerado um Deus pretensioso, com defeitos de orgulho e vaidade inerentes aos homens.

A criação perfeita sai das mãos de um criador e idealizador perfeito. Toda obra imperfeita, sujeita a reparos futuros, só pode ter sido produzida por um “criador” despreparado. Seria Deus imperfeito ao criar uma humanidade pecaminosa, de que, depois, se arrependeu , sufocando-a em dilúvios e gomorras, guerras, pestes e toda sorte de males?

Seria justo, sabendo que suas criaturas poderiam até ser condenadas ao fogo eterno do inferno ao sabor das vontades, ódios e caprichos daqueles que se dizem seus porta-vozes, seus ministros, seus profetas e fundadores de religiões?

A humanidade não tem condições para explicar ou conhecer os segredos divinos, portanto não tem condições de afirmar que um mal é mal, que um pecado é pecado, já que tudo foi criado pela infinita sabedoria desse mesmo Deus, que sabe até o número de fios de cabelo numa cabeça e que até uma folha de árvore só cai com sua permissão. Deus conheceria o passado, o presente e o futuro de suas criaturas, portanto o pecado que condenaria uma delas, era de seu pleno e antecipado conhecimento e aprovação, e, absurdamente, chegar-se ia à conclusão de que não existe pecado para as faltas que julgamos ignominiosas, mesmo para os mais horripilantes crimes, mesmo aqueles cometidos pela Igreja que em seu nome criou o Tribunal da Inquisição, e que levou à morte com requintes de crueldade a centenas de milhares de suas criaturas. Portanto, esses bispos e frades aos quais atribuímos crimes hediondos por um período ininterrupto de mais de dez séculos, só procederam com o conhecimento e beneplácito desse mesmo Deus! Portanto, são inocentes?!

Para explicar essa esdrúxula perspectiva as religiões atribuíram a Deus a invenção de um “livre arbítrio”, válvula de escape para aquilo que não podem ou não sabem explicar, pois se o fizessem, negariam a pré-ciência de Deus, portanto a sua perfeição.

O atual Papa disse que Deus está fora da compreensão humana e só pode ser admitido através da fé. Sendo assim, é um ser imaginário e irreal. A fé só existe para as coisas improvadas, que não podem ser explicadas cientificamente. Comprovado um fato, ou raciocínio, sai de cena a fé, pois passa a ser certeza.

Prudhome disse que o “Deus dos humanos é a própria encarnação do mal”.


Outro escritor fez a seguinte proposição: “Suponhamos um momento que um de nós pudesse ter criado um efêmero e lhe dissesse (...sem que ele pudesse ouvir) -Criatura minha, adora-me! O pobre animalejo deu alguns vôos sem pensar em coisa alguma, e morreu no fim do dia.

Um necromante diz ao homem: “deita-lhe uma gota do teu sangue, que poderás ressuscitar a criatura”. O homem faz em si uma picadura, e com o seu sangue ressuscita o efêmero. Que fará o homem?

O que fará, vou dizer-vos, exclama um crente fanático:
- Como o efêmero na sua primeira vida não teve o espírito (ou a tolice) de adorá-lo, acenderá uma fogueira espantosa e nela lançará o desobediente animalzinho, sentindo somente não poder conservar-lhe milagrosamente a vida no meio das chamas, afim de queimá-lo eternamente.

Ora pois, dirão todos: não existe louco furioso que seja tão covarde, tão perverso como este.

- Eu vos peço perdão, cristãos vulgares; o homem em questão não poderia existir, concordo; porém existe na vossa imaginação somente, tão cruel e tão covarde: é o vosso Deus! Assim o explicais.

Os católicos o vêem da seguinte maneira: castiga a humanidade eternamente através de guerras, pragas, doenças e com o predomínio de uns sobre os outros. Faz sangrar seu próprio filho sobre uma cruz para resgatar o seu próprio erro oriundo de uma falta de previsão da sua parte. Criou um “diabo”, seu rival, tão poderoso ou mais do que ele próprio, para enganar o primeiro casal angelical e inocente que viveu na terra.

Não se sente a presença de um Deus bondoso durante a vida. Só se vê iniqüidades; se elas são provocadas pela eventual intervenção do “demônio”, este, então, é mais poderoso que o Deus que o criou, pois o seu poder maléfico se sobrepõe às possíveis bondades do seu antagonista.

Arrependendo-se Deus de haver criado a humanidade, degenerada pela força do mal, mais poderoso que a sua própria vontade, no caso do “livre arbítrio”, prescinde do seu poder de corrigir o mal, reformando o pensamento do errado, infundindo-nos nos cérebros unicamente a propensão para o bem.

Achou, porém, mais fácil afogá-la num “dilúvio”. Para repovoar a terra, preservou uma família cujo chefe era um beberrão e injusto, que amaldiçoou um neto pelo erro do seu próprio filho.

Can, pai de Canaã, viu seu pai Noé nu, após uma bebedeira, e foi contar aos irmãos, certamente zombando, do contrário não teria despertado a ira de Noé. Este, após tomar conhecimento do acontecido, certamente denunciado pelos seus outros filhos, indignado, amaldiçoa seu neto, descarregando sobre ele todo o seu ódio, dizendo: “Maldito seja Canaã, torne-se ele o escravo mais baixo dos seus irmãos”. (Gênesis, 9:25).

Porque não amaldiçoou quem cometeu a indiscrição, e sim a um inocente? Qual a justificativa para esse procedimento de pura injustiça? Qual o sofisma para distorcer o que está escrito?

Não teria sido melhor, depois do “dilúvio”, Deus ter deixado a terra habitada somente por animais, eliminando a humanidade que só desgostos lhe deu, e que, no futuro, se transformaria no maior destruidor de toda a criação?

Baghwan Rajneesch disse sobre o temor de Deus, pregado pelas religiões:

“Temente a Deus é expressão absurda. Se tem medo, não ama. Como pode amar a Deus se sua abordagem básica é através do medo? A partir do medo o amor nunca desponta. A partir do amor, o medo jamais pode existir. Não se pode amar uma pessoa quando se tem medo dela”.

Por séculos afora ensinaram ao homem a ter medo, a temer a Deus, razão por que Nietzch declarou: “Deus está morto.”