Cada seita cristã, ou melhor, cada apostasia do judaísmo que diz ter se fundamentado nas Sagradas Escrituras, ou no Antigo Testamento, tem o seu modo especial de interpretá-las.
Tanto o Antigo, como o Novo Testamento, tem centenas de traduções, em diversos idiomas, que se apresentam sem homogeneidade, dando origem a interpretações que não se harmonizam com a finalidade da sua existência, até distorcendo, às vezes, sua correta interpretação.
Dar-se ao seu conteúdo uma origem divina já não é mais aceito passivamente, pois, desde quando se observou que as interpretações que chegavam ao povo não passavam de mistificações para levá-lo, como um dócil rebanho, a aceitar somente os conceitos que o escravizavam e o mantinham sempre humilhado e prostrado ante o temor de um já desacreditado Satanás, com o seu reino infernal, em antítese ao paraíso celestial, reino de Deus.
Já não é mais possível a aceitação das lições inoculadas no povo pela "Santa Inquisição", quando se dizia incessantemente, através dos púlpitos, ou dos confissionários o preceito de remota época:
"Todo homem tem o desejo de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros, mas se descuida de si mesmo. Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado se com isso não viveres mais santamente." (Thomás de Kempis - Livro I, cap. II - Imitação de Cristo - 1427).
Até a segunda década deste século, quando radio e televisão eram praticamente inexistentes, ou de difícil acesso ao povão, e a imprensa censurada pelo falso respeito às instituições eclesiásticas, e ao atávico temor dos castigos celestes, e das excomunhões, era isso que se nos ensinavam nos seminários e nas Igrejas.
Da Bíblia só se conhecia o que era ensinado através das "Histórias Sagradas” nos estabelecimentos de ensino para jovens, ensino esse já escoimado de interpretações que pudessem levantar dúvidas sobre fatos pouco edificantes ali existentes ou narrados. A leitura da Bíblia, bem como a sua posse, era proibida sob a falsa alegação de que somente os padres podiam interpretar seu sentido divino. Durante a Idade Média a simples posse de uma Bíblia era crime passível de pena de morte na fogueira da Inquisição da Igreja Católica.
Como se alguém que quisesse escrever a biografia de um herói:- todos os seus atos são grandiosos e altruísticos. Nenhum fato que o pudesse deslustrar seria relatado e explicado literalmente.
Um grande e sanguinário ditador deste século poderá ter duas biografias. Seus admiradores enaltecerão seus atos, apresentando-o como um humanista que desejasse purificar a raça humana, eliminando todos aqueles que considerasse fora dos moldes arianos.
Seus opositores mostrá-lo-iam como um criminoso genocida, megalomaníaco, responsável por dezenas de milhões de mortes, tanto nos campos de batalha, como nos campos de concentração, onde homens, mulheres e crianças eram privados de alimentação, reduzindo-se a patéticos esqueletos vivos.
Para os adultos, o ensino da religião se limitava ao que era pregado dos púlpitos.
Assim são também as religiões. Mahatma Gandhi disse: "os maiores crimes da humanidade são praticados em nome da religião". A Bíblia que é simplesmente a história de um povo, suas lutas, seus altos e baixos como nação subdesenvolvida, fala, inclusive, da sua religiosidade, que, aliás, é inerente a qualquer história de qualquer povo, sem, contudo, ser um tratado exclusivamente religioso.
Se a sua finalidade fosse somente o aperfeiçoamento espiritual, estaria escoimada da metade do seu conteúdo, que apresenta um povo arrogante, ignorante, bárbaro, desonesto, sanguinário e cruel com aqueles que tiveram a infelicidade de terem estado em seu caminho.
Os seus "patriarcas" são apresentados como beneficiários de uma promessa divina que sempre falhou e nunca foi cumprida. Portanto, não mencionam que esses relatos são inverossímeis e destituídos de credibilidade, fazendo deles um dever de crença, mais pela fé do que pela possibilidade de serem cumpridos. Oferecer a alguém algo que já pertence a outro, é crime, e só seria aceitável como se fosse para enganar a uma criança a quem se oferecesse uma guloseima para obter sua obediência. Porque falsear o raciocínio para enganar um povo sem cultura, de pastores nômades, quando não era lícito, perante as leis, dar uma terra que já tinha dono, sem qualquer compromisso de compra e venda? Mesmo o Deus de Abraão não tinha o direito de fazer qualquer doação através de uma espoliação criminosa.
Apesar das dezenas de deuses da Babilônia, Suméria, Caldeia e outros povos, inventou-se um novo Deus, exclusivo para Abraão e seus descendentes, com a diferença de que o novo deus era pródigo em promessas unilaterais. Oferecia mais do que exigia, acenando a Abraão com uma descendência como as estrelas do céu ou como as areias do mar, no entanto as suas mulheres eram, quase sempre estéreis.
Prometeu-lhe terras e riquezas, mas, na realidade, só deu a seus descendentes, escravidão, pobreza e humilhações:
8 anos na Mesopotâmia; l8 anos entre os moabitas; 20 anos entre os cananeus;
7 anos entre os midianitas; 18 anos entre os filisteus, depois, mais 40 anos;
70 anos na Babilônia.
Dos egípcios foram escravos durante 430 anos, isso sem contar as destruições das suas cidades em ininterruptos conflitos com povos vizinhos, que nunca se conformaram com sua vizinhança indesejável.
No ano 4 AC os romanos crucificam 2.000 judeus por rebelião.
No ano 35, Pilatos massacra judeus em Garizim. - Em 49 o Imperador Cláudio expulsa os judeus de Roma. - Em 63 Pompeu conquista toda a Palestina, subjugando os judeus.
Em épocas posteriores foram dominados pelos gregos, desde Alexandre, que tentaram inutilmente transmitir-lhes sua civilização. Depois vieram os romanos desde o ano 63 A.C. até o ano 70, da nossa era, quando, cansados de enfrentar seguidas rebeliões, resolveram destruir, de vez, toda a nação judaica, com destruição total de Jerusalém e do Templo, exilando todo o povo para outros países.
Depos do ano 381, quando o Imperador Teodósio fez do cristianismo religião oficial do Império sob o pomposo nome de Igreja Católica Apostólica Romana, os judeus viram contra si a mais desenfreada perseguição, agora religiosa, e não mais política. Os povos que dominaram os judeus em épocas passadas, quando os assassinavam, faziam-no como soldados em guerra: a fio de espada. Com o advento do catolicismo, surgiram os castigos humilhantes, interrogatórios sob as mais terríveis torturas e queima em fogueiras, tudo isso sob a alegação hipócrita do desejo de salvar suas almas.
Papas se empenhavam junto a monárcas para expulsão de judeus dos seus territórios, depois de expropriar-lhes os bens.
Citaremos alguns, ao acaso:
Em 695, expulsos da Espanha - Papa Sérgio I. Em 1182 e 1305, expulsos da França - Papas Lúcio III e Clemente V. Em 1342, da Alemanha - Papa Clemente VI. Em 1471 e seguintes, na Espanha Papa Sisto IV, protetor de Torquemada, o mais cruel dos Inquisidores da Igreja. Em 1487 e 1497, de Portugal - Papas Inocêncio VIII e Alexandre VI, sendo este considerado o mais corrupto dos Papas.. Em l503, da Alemanha - Papa Júlio II. Em 1534, de Portugal - Papa Paulo III.
Terminada a perseguição a partir da Revolução Francesa, o povo dileto e escolhido ainda não conseguiu ver realizadas as dezenas de promessas do seu Deus. No início do século XX sugem novas ideologias contra os judeus: o fascismo e o nazismo que eliminaram dezenas de milhões de inocentes, talvez por um atavismo de cunho religioso
Somente em l947 o povo judeu conseguiu, através de nova espoliação pelas nações que venceram a 2ª Guerra, voltar para a Palestina, desalojando os seus legítimos habitantes e se estabelecendo na terra que o Deus de Abraão lhe havia prometido. Teria o seu Deus só agora cumprido a promessa, feita a mais de três mil anos, por intermédio de messias ingleses e americanos?
O Deus de Abraão acenou-lhe com uma terra que já tinha dono, onde não havia fartura de água e muito menos de mel. Os seus conhecimentos geográficos, embora fosse ele sapientíssimo, conhecedor do passado, do presente e do futuro, eram limitados exclusivamente àquele reduzido espaço das imediações da Palestina, do contrário ter-lhes ia dado terras do outro lado do mar, onde caudalosos rios serpenteavam entre florestas tropicais, verdadeiros mananciais, simbolicamente de leite e mel.
Para o Novo Testamento, as interpretações continuam, sempre, ambíguas e falsificadas. Os seus escritores escreveram "oito", os seus ministros ensinam "oitenta", afirmando que tudo é mistério divino e insondável. Seus escritores contaram, baseados em lendas e interpretações sectárias, a desconhecida vida de mais um profeta, entre centenas dos que proliferaram nas épocas em que o povo se encontrava subjugado por conquistadores estrangeiros. Sob o domínio romano surgiram vários "messias", entre eles, Teudas, citado em Atos, 5:36, ao qual seguiram mais de quatrocentos prosélitos, todos eliminados por diversos meios, inclusive crucifixão. Em 5:37, menciona outro que se dizia "messias" e que salvaria Israel, de nome Judas, o Galileu, compatriota de Jesus, e que, também, arrastou grande multidão de adeptos, sendo todos eliminados pelos romanos.
Também a decantada rainha de Sabá, nos tempos de Salomão (Lucas, ll:31), foi dada como reformadora, opondo-se aos maus costumes daquela geração.
" Os manuscritos do Mar Morto, encontrados em l927, contam que sessenta e cinco anos antes do nascimento de Jesus, "um mestre da retidão" morreu martirizado sob o governo de Aristóbolo II. Esse profeta fôra membro ou mesmo chefe da seita dos "essênios” e, provavelmente um predecessor de Jesus. (O Vale dos Reis - Otto Neubert - fl. 327).
"Por meio de Josefo ficamos sabendo que, no primeiro século, antes da destruição do Templo (ano 70), surgiram vários "messias", que prometiam o alívio do jugo romano, e encontraram prontos seguidores.(The Jewish Enciclopédia, vol. 10, pg. 251).
No ano 132, Barcocheba (Bar Koziba), um dos mais destacados dos pseudo-messias, foi saudado como o Messias-rei. Ao esmagarem a revolta por ele dirigida, os soldados romanos mataram milhares de judeus. Cria-se que Barcocheba descendesse de David, o que o teria ajudado em suas pretensões messiânicas.
Entre tais pretendentes a "messias" achava-se Moisés de Creta; esse asseverou que dividiria o mar entre Creta e a Palestina. Outro "messias" foi Sereno, que desencaminhou muitos judeus na Espanha. "The Jewish Enciclopédia" alista 28 falsos "messias" entre 132 e 1744 EC. (Ajuda ao entendimento da Bíblia, fl. 1106).
De todos os "messias" talvez tenha sido Jesus o mais pacato e, se não fosse a intervenção de Paulo, apóstata do judaísmo, de onde foi proeminente membro, o cristianismo talvez não ultrapassasse os limites da Galiléia.
O Messias, ou o Cristo (ungido, em grego), poderia ter sido, tanto Judas, o Galileu, como Barcocheba, ou outro entre as dezenas, se tivessem encontrado um Paulo de Tarso que o transformasse em Filho de Deus.
(O verdadeiro Messias - Ver capítulo 27)