É no sobrenatural que procuram os consolos para seus sofrimentos e angústias, como também solução para suas pretensões ou suas dúvidas.
Quando Dédalo inventou as asas para seu filho Ícaro, buscou no sobrenatural ou na fantasia a esperança de conseguir proteção divina para seu sonho.
Nas "Mil e Uma Noites" recebeu-se da divindade um "Tapete Mágico", mais prático que as asas de Ícaro, pois podia fazer transportes sem gastos de materiais ou de energias.
Aladim teve a sua "Lâmpada Maravilhosa" que, por poderes sobrenaturais, lhe proporcionava a satisfação na realização dos seus desejos.
As “fadas”, heroinas dos contos infantis, têm suas “varinhas de condão”.
Nas civilizações pré-cristãs, e mesmo nas atuais, essas entidades sobrenaturais tinham influência sobre o cotidiano, recebiam denominações e a elas eram atribuídas funções de proteção, ou punição, para todos os acontecimentos relacionados com o homem.
Os rios e as fontes estavam sob a proteção das Náiades, filhas do deus supremo, Zeus. As Dríades protegiam os bosques. Anjos benfazejos povoavam os céus do Olimpo, dando suas proteções às artes e àqueles que as praticavam. Eram anjos que despertavam enleios e poesias àqueles que se encontravam sob suas vistas. Clio era o anjo da "história"; Euterpe, da "música"; Thália, da "comédia"; Melpômene, da "tragédia"; Polímnia era o anjo da "oratória"; Urânia, da "astronomia". E Cupido, o "anjinho” do amor? E muitos mais.
Também entre os hebreus existiam entidades sobrenaturais que participavam, ora em benefício, ora em castigos para o povo. Suas intervenções eram mais pessoais, não agindo sobre a coletividade. Um anjo aparece a Tobias para servir-lhe de guia e depois cura a cegueira do seu pai com um pedaço do fígado de um peixe.
Outro anjo aparece a Jacob, e, certamente adquirindo forma corpórea, luta com ele como se fosse um simples combatente humano.
Outro ex-anjo, a quem deram o nome de Satanás, aprisiona e arrasta Jesus pelas escadarias do Templo, com certeza desprotegido de guardas e sacerdotes, no momento, sem que ele ao menos pedisse por socorro, e depois o leva ao alto de uma montanha, onde lhe mostra todos os reinos do mundo! (Mateus, 4:8).
Certamente houve grande exagero nesse escrito, pois seria impossível que, da Galiléia, pudesse ver Pérsia, Babilônia, Egito, Roma e outros milhares de reinos espalhados pelo mundo.
No princípio do mundo bíblico, um dos anjos decaídos, toma a forma de uma serpente para, num eloqüente colóquio, induzir Eva a desrespeitar uma ordem divina.
Essa criatividade humana estabeleceu dogmas que, num futuro distante, serão considerados lendas e mitologias, tais como um "inferno" de fogo eterno, um "purgatório” de sofrimentos, que podem ser reduzidos mediante ofertas em dinheiro, e um "limbo" de trevas eternas para os recém-nascidos que morressem sem receber o chamado "batismo".
Para os serviços junto ao trono de Deus, os Padres, Bispos e Papas "criaram" nove classes de "anjos", certamente inspirados pelo Espírito Santo. Os mais graduados, aqueles que permanecem junto ao divino trono, são os Serafins, que dispunham de três pares de asas ( Isaias, 6:2). Na segunda categoria vem os Querubins, sendo que um deles protegeu a entrada do Paraíso Terrestre com uma espada de fogo para evitar a volta para ali do primeiro casal humano que fora expulso, pelo pecado de comerem um fruto proibido. Da terceira classe, cujas funções não constam da Bíblia, até a sétima, estão os Tronos, os Dominações, os Potestades, os Principados e os Virtudes. Na oitava classe vem os Arcanjos, dos quais só três revelaram os seus nomes aos mortais: Miguel, Gabriel e Rafael. Da nona classe constam os simples anjos, sem qualificações específicas, que seriam uma espécie de serviçais, embora conservando suas dignidades angelicais. (Bíblia Sagrada-Edição Ecumênica - Editora Barsa [somente os nomes]).
"Cada ser humano tem um anjo da guarda que lhe é confiado por Deus desde o seu nascimento". Esses anjos tinham por tarefa a guarda e a proteção das pessoas que lhe eram confiadas. Essa assistência angelical não passou, porém, de uma utopia, pois nem todos os protetores foram corretos no desempenho das suas funções, abandonando seus postos de trabalho, deixando desprotegidos aqueles que lhes foram confiados por Deus. Nas guerras, eles simplesmente fogem, espavoridos, não dando cobertura a milhares de criaturas que estavam aos seus cuidados. Nos momentos em que assaltantes, estupradores, assassinos e outros criminosos necessitavam das suas proteções, quando poderiam ser desviados da maldade, tanto os seus anjos quanto os das vítimas haviam abandonado seus postos. Mostraram-se entidades descumpridoras dos seus deveres e passíveis de censuras que, em último caso, suas faltas recaem sobre Deus, que não soube escolher seus prepostos.
Usurpando os poderosos desígnios divinos, a religião, sem poder fornecer uma argumentação convincente, para justificar a inoperância dos anjos protetores, inventou, para se livrar de uma resposta difícil, o que foi denominado de "livre arbítrio".
Essa perspectiva vai de encontro com a teoria de um Deus todo poderoso, que conhece o passado, o presente e o futuro, fazendo dele um inventor pouco precavido, que desconhecia as conseqüências futuras dos seus atos. O chamado "livre arbítrio" nega e combate a teoria da infinita bondade divina, outorgando-lhe a responsabilidade de todos os males que afligem a humanidade, fazendo de Deus, não um Deus de bondade, mas de calamidades, que se diverte, assistindo o sofrimento daqueles que criou à sua imagem e semelhança, sem que usasse do seu poder para evitar o que teria sido um seu erro de perspectiva.
A existência de anjos, criada desde os primórdios da humanidade, é aceita e imposta por diversas religiões. Foi aceita pelo judaísmo, com exceção dos saduceus, classe mais esclarecida entre os sacerdotes, mais rica e que não aceitava a teoria da imortalidade da alma, nem da ressurreição. Outras religiões e seitas oriundas do judaísmo, como o catolicismo e o islamismo, têm nessa crença um dos pilares da sua crendice.
No Islamismo, o mesmo Anjo Gabriel, dos cristãos, ditou a Mahomé, (que era analfabeto) o Alcorão.
Para os "mórmons", um anjo emprestou um livro, com folhas de ouro, ao profeta Joseph Smith, que o copiou, e depois, o devolveu.
Assim que o homem adquiriu consciência e passou a coordenar racionalmente o seu pensamento, no alvorecer da humanidade, passou a temer e a respeitar os fenômenos naturais, atribuindo a eles, a favor ou contra, uma resposta para seus próprios comportamentos. Os maus eventos passaram a ser atribuídos a entidades maléficas em contraposição aos acontecimentos favoráveis, atribuídos a forças benéficas. Isso é chamado de maniqueísmo, sistema segundo o qual o mundo é dominado por dois princípios antagônicos: o Bem representado por Deus, e o Mal, representado pelo Diabo. Esse antagonismo explica como foi criada a idéia de Deus e de Demônio. É facilmente explicado quando fazemos simples comparações: claro e escuro, um não pode existir sem o outro. Alto e baixo. Fraco e forte. Dia e noite. Assim nasceram os raciocínios que levaram à criação das religiões e das superstições que vêm escravizando a humanidade ignorante, sempre em benefício de uma classe mais esclarecida e aproveitadora.
Entre os povos mais antigos, sumérios, babilônicos, chineses, hindus, persas, e outros, a idéia do bem e do mal adquiriu forma filosófica e religiosa, criando-se deuses e demônios, que habitavam em céus e infernos, de onde exerciam suas influências sobre a humanidade.
O espírito criativo e inventivo povoou esses lugares de seres imaginários, dando-lhes nomes e hierarquias, que, através de lendas e de tradições passaram a ser uma verdade cuja negação ou dúvida seria classificada de herética, levando seus cépticos a censuras, penitências, prisões, confisco de bens materiais, e, mesmo, à morte.
A partir daí, o aparecimento de anjos foi conseqüência natural para atuação indireta da divindade sobre o homem. Um Rei ou uma Divindade não tem necessidade de ir diretamente ao povo, para isso inventaram os funcionários subalternos para serem os portadores dos seus decretos ou os anjos para as missões emanadas do trono divino.
Na Bíblia, história do povo judeu, o aparecimento de anjos ocorre cerca de quatrocentas vezes.
Daniel, (7:10), um dos grandes profetas, viu, durante um conselho celeste, de frente a Deus, milhares de milhares de anjos em serviço e milhões de milhões em pé, aguardando ordens, no momento de ser aberto o "livro" de anotações divinas.
A criatividade dos fazedores de religiões viu-se na contingência de criar nove postos hierárquicos de chefias, para controle desses milhões de seres buliçosos e irrequietos, que são os anjos. Assim, também, aconteceu, com Moisés, diz a Bíblia, quando teve que criar comandos hierárquicos para manter a disciplina da turba heterogênea de escravos expulsos do Egito, quando ali não mais eram necessários. Deus, revelando preferências e distinções, colocou a seu lado os aristocráticos Serafins como seus subordinados diretos. Sendo mais amplas as suas atribuições, dotou-os de três pares de asas (Isaias, 6:2) para que se pudessem deslocar com maior rapidez nas imensidades celestes.
Os anjos nem sempre eram criaturas perfeitas, podendo ser invejosos, como acontece com os homens. Uma legião deles, que se julgavam preteridos, provocou uma revolta contra o protecionismo divino.
Com toda a certeza a batalha foi terrível e os derrotados foram lançados num lugar até aquele momento inexistente, criado especialmente para eles: o Inferno. Na hipótese de a vitória ter sido dos revoltosos, certamente seus opositores, com todos os comandos, inclusive o próprio Deus, ocupariam o local de fogo que para eles foi criado! Se Deus, com o sua divina presciência, não pôde detectar uma conspiração que se processava ao seu lado, no caso de uma derrota, seria aprisionado como qualquer vencido em combate.
Na própria Bíblia consta que o Deus de Abraão, Isaac e de Jacó tomava partido injustamente, discriminando suas criaturas, provocando ciúmes e ódios, como aconteceu ao lavrador Caim, que trabalhava a terra sob um sol escaldante, enquanto que seu irmão Abel, pastor, ordenhava suas ovelhas, confortavelmente, à sombra de oliveiras, e era o preferido.
O Deus de Isaac era também tolerante com falcatruas, protegendo desonestos, como aconteceu com Rebecca ao ludibriar seu filho Esaú em favor de Jacó.
Lucas tinha grande admiração pelos anjos, fazendo deles partícipes constantes nos seus relatos. O mais notável e maravilhoso foi o aparecimento de uma multidão, talvez de milhares ou de milhões de anjos dos exércitos celestiais, numa gelada noite de inverno, quando a neve cobria todo o campo, a alguns pobres e míseros pastores que, inexplicavelmente, trabalhavam numa época imprópria para pastoreio, a troco de ínfimo salário.
Para uma assembléia tão modesta não havia a necessidade de mais do que um anjo, quando deveria o grosso do "exército celestial" ter comparecido ao imenso aglomerado de povo judeu e soldados romanos reunidos em Belém para o recenseamento que se processava.
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