“Nos primórdios da era cristã havia uma profusa tradição oral sobre a vida de Jesus, que aos poucos foi sendo compilada por escrito. Só que não há como localizar o primeiro texto, a fonte de todos os demais. Na verdade ele jamais existiu... Para se chegar a tudo que se conhece não se partiu de nenhum livro mestre, mas de muitos; a maioria apresentada por obras confusas, de escasso valor literário, toscas até... Os quatro Evangelhos são redigidos em linguagem simples, direta, clara, sem rebuscamentos. Já os apócrifos obedecem a uma concepção mais livre, relegados a um segundo plano, acabaram não sendo alvo da mesma sanha dos censores”
“No Concílo de Nicéia, no ano 325, deus-se a separação dos Evangelhos Canônicos e Apócrifos. Em obra intitulada Libelus Sinddicus, um autor anônimo apresenta uma versão de como se deu o milagre da sua eleição: estando os Bispos em oração, os Evangelhos inspirados foram por si sós colocar-se em um altar.”
“Outra versão nos diz que todos os Evangelhos foram colocados no altar e os Apócrifos cairam. Uma outra ainda afirma que o Espírito Santo entrou em forma de pomba no recinto do Concílio e ia pousando no ombro direito de cada Bispo, e cochichando ao seu ouvido quais os Evalhelhos que Ele havia inspirado”.... (Apócrifos - Os proscritos da Bíblia. M.H.O.Tricca ).
Outra versão:
“ Não é demais dizer que, por ocasião do Concílio de Nicéia, que resolveu a questão adotando somente aqueles quatro livros, era cerca de 30 os alfarrábios que tratavam do mesmo assunto e pertenciam a 30 seitas diferentes, escritos alguns pelos outros oito apóstolos, como Barnabé, Judas, Thiago, Pedro, havendo muitos outros apócrifos, mas, cuja contextura não agradou.
De fato, reunidos nesse Concílio, 318 Bispos e Arcebispos e não se conseguindo ao cabo de alguns anos, de acaloradas discussões, em que ferviam epítetos insultuosos, chegar-se a um acordo pelas incoerências e contradições verificadas naqueles escritos, o Papa resolveu o seguinte: “ Colocar-se iam debaixo do altar todos aqueles alfarrabios, o Cenáculo se concentraria, como nas seções espíritas, invocar-se ia o espírito do próprio Cristo, e, se lhe pediria indicar, por um milagres, qual ou quais daqueles livros que deveriam ser considerados verdadeiros. Assim foi feito; os livros foram atirtados para baixo do altar,. A invocação se fez, e...após um tempo mais ou menos longo...apareciam sobre o altar os quatro livros que hoje servem de colunas sustentatórias da tiara do Papa.
Se isto não se parece com espiritismo, então, tem muita semelhança com feitiçaria!”
(Jesus e Sua Doutrina - Federação Espírita, pag.154/155)
Em Apócrifos II, Os Proscritos da Bíblia - M.H. O Tricca, pg. 15, ela diz o seguinte:
“Existem verdadeiras maravilhas entre os Apócrifos, como também entre os Canônicos. Por que não deixar todos os texros acessíveis para que cada um, com o bom senso, com o coração, conheça, sinta e julgue por si mesmo todos os inúmeros aspectos, da vida de Cristo e as variadas formas de Sua manifestação na face da Terra, que só o conjunto dessas obras nos fornece”.
Com referência a um antigo manuscrito, alguns críticos disseram: "Os Evangelhos são, na realidade, falsificações do segundo século, e não foram de modo nenhum escritos pelos discípulos de Jesus. (Despertai-
Segundo os ensinamentos das Igrejas cristãs, os Evangelhos foram inspirados e ditados por Deus aos seus escritores, e compõem-se de livros que contêm a Lei e a doutrina pregada por Jesus.
Nada consta sobre haver o próprio Jesus deixado algo escrito, nem mesmo que fosse ele alfabetizado, razão por que tudo o que se sabe sobre ele, se encontra no que foi relatado décadas após a sua morte, por escritores anônimos, já sobre lendas ou tradições atribuídas aos seus discípulos.
As redações dos Evangelhos não são atribuídas aos próprios evangelistas, e sim sobre tradições do que, possivelmente, eles tenham ensinado ou pregado. As Igrejas cristãs os apresentam como "segundo Mateus", "segundo Marcos", etc., pois nada há de positivo terem sido elaborados por eles próprios, já que eram pobres e simples pescadores de pequenas aldeias da longínqua e pobre Galiléia, sendo eles naturalmente "indoutos e idiotas", isto é, analfabetos, como diz o próprio Paulo, segundo Atos,
A “THE GREEK NEW TESTAMENT, folha 430, diz:
QEWROUNTES DE TEN TOU PETRON PARRESIAN KAI IOANNOU KAI KATALA-BOMENOI OTI ANTROPOI AGRAMMATOI EISIN KAI IDIWTAI....
Outras Bíblias também dizem que eram "iletrados e idiotas". (Edição Ecumênica Barsa, fl. 104), e (Bíblia Sagrada Livros do Brasil, fl.354) e a incontestável Vulgata Latina, fl. 85, onde consta: -" Videntes autem Petri constantiam et Ioannis, comperto quod homines essent sine litteris, et idiotæ, admirabantur e cognoscebant eos quoniam cum Iesu fuerant".
As Bíblias apresentadas ao povo, em geral, amenizam ou mistificam a tradução da palavra “Idiota -IDIWTAI” , dando-a como sendo “ignorante”, “indouto”, “comuns” e “do povo”, no entanto, em grego, esses termos tem as seguintes versões:
ignorante = amaqhV ( amates )
indouto: a g r a m m a t o V ( agramatos)
comum = k o i n v V ( koinos )
e do povo = demotikoV ( demoticos )
Esses apóstolos "indoutos e idiotas", como diz Paulo, só poderiam ser comparados aos pescadores de pequenas aldeias do interior do Nordeste brasileiro, juntos de um lago, e não de um piscoso rio, sem mercados para comerciarem seus produtos, e vivendo quase que exclusivamente de uma pesca de subsistência, num estado de pobreza quase absoluta. Nunca se poderia exigir desses pobres trabalhadores quaisquer obras literárias que pudessem vir a influir sobre quaisquer assuntos, mesmo sobre a arte de pescar, muito menos sobre temas filosóficos que iriam revolucionar o pensamento humano, colocando-os nos mesmos pedestais em que foram colocados Sócrates, Platão, ou Aristóteles..
Nos primeiros tempos do cristianismo surgiram centenas de relatos sobre a vida de Jesus e sua doutrina, sendo que a maioria deles foi repudiada pela Igreja, por estarem eivados de fatos inacreditáveis, e mesmo absurdos, ainda assim, aceitos por uma grande parcela dos simpatizantes da nova pregação susceptível a influências do sobrenatural.
Dentre os Evangelhos, ou escritos sobre a vida de Jesus, nos primeiros tempos, podem-se citar, como aceitos pelo cristianismo, os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, bem como as Cartas a eles atribuídas, e principalmente ao que se refere a Paulo que foi, na realidade, o verdadeiro arquiteto do cristianismo, sem o qual, talvez a doutrina não tivesse passado de uma pequena seita restrita a algumas aldeias da Galiléia, não incluída a cidade onde Jesus foi criado, Nazaré, onde quase foi linchado pela população (Lucas,4:29) e quando nem mesmo seus irmãos criam no que pregava (João,7:5).
O que teria dito Jesus para que o povo, enfurecido, o quisesse matar? Só poderia ter sido algo de muito grave que ofendesse a esses judeus tão obstinados na Lei de Moisés, que teriam julgado o seu discurso herético.
Não foram aceitos pelo cristianismo, recebendo o título de "apócrifos":
O primeiro Evangelho de Mateus (escrito em aramaico)
Evangelho dos Hebreus
Evangelho dos Doze e dos Ebionitas
Evangelho dos Egípcios
Evangelho ou Tradições de Matias
Evangelho de Tomás
Evangelho de Filipe
Evangelho de Pedro
Evangelho dos Adversários da Lei e dos Profetas
Memória dos Apóstolos
Evangelho de Apeles
Nascimento de Maria
Evangelho de Judas Iscariotes
Evangelho de Eva
Ascensão de Santiago
Evangelho Vivo
Perguntas de Maria
Evangelho da Perfeição
Evangelho de Basílides
Evangelho de Marcion
Além desses, há diversos fragmentos encontrados em papiros.
Há outra série de apócrifos, chamados "Da Natividade":
Proto-evangelho de Santiago
Evangelho do pseudo Mateus
Livro sobre a Natividade de Maria
Livros da Infância do Salvador
Outros livros sobre a Natividade.
Outros: - Apócrifos da Infância:
Evangelho do pseudo Tomás
Evangelho árabe da Infância
História de José, o Carpinteiro
Evangelho armênio da Infância
Apócrifos chamados "da Paixão e Ressurreição:
Evangelho de Pedro
Evangelho de Bartolomeu
Livro de São João Evangelista
Narração do pseudo José de Arimatéia
Dentre esses numerosos Evangelhos e escritos sobre a vida de Jesus, a Igreja selecionou os quatro atuais, considerando os demais como fantasiosos e heréticos através de Concílios, quando Padres e Bispos "resolveram" quais eram os autênticos e os falsos, num verdadeiro jogo de “cabra cega”.
Esses quatro Evangelhos "canônicos" não foram escritos pelos supostos autores que lhes deram os títulos; fundamentaram-se no chamado Evangelhos dos Hebreus que não passava de um número elevado de tradições ou mesmo já de lendas sobre a pessoa de Jesus.
“Alem do mais, parece que os Atos, assim como os Evangelhos, foram compilados de forma seletiva, sendo submetidos a profundas alterações por editores posteriores”. ( Manuscritos do Mar Morto, M. Baigent e R.Leigh).
Jerônimo, Santo da Igreja, (331-420) fala do texto original hebreu bem como das suas versões em grego e latim, que diz haver copiado da "seita" dos nazarenos, certamente já destruído pelos expurgos que a então Igreja Católica fez sobre tudo que se referia a Jesus e que não interessava à religião recém-nascida.
Euzébio, (267-340) considerado o pai da história eclesiástica, depois de aceitar os quatro Evangelhos ditos canônicos, chamou os demais de bastardos e espúrios.
Desses apócrifos, rejeitados na sua maior parte, restaram ressaibos que se incorporaram à tradição cristã, apesar de terem sido proibidos pela Igreja primitiva. Os nomes dados aos pais de Maria: Joaquim e Ana; a festa da apresentação de Maria, menina, que consta do calendário bizantino; o nascimento de Jesus numa gruta em que não faltaram bois e asnos; os ídolos que se quebraram num templo egípcio quando Jesus ali penetrou; os três "reis magos": Melchior, Gaspar e Baltazar que vieram do oriente sem qualquer escolta mencionada; o nome de Longinos para o soldado que lanceou o corpo de Jesus; a estória do lenço, com que Verônica enxugou o rosto de Jesus, ficando ali gravada sua efígie.
Essas estórias são relatadas através de tradições, muitas delas constando nos Evangelhos apócrifos, no entanto continuam fazendo parte dos cerimoniais da Igreja
Em alguns dos Evangelhos apócrifos são narrados fatos, ou mesmo milagres rocambolescos, que a Igreja atual considera ridículos e os proscreveu, no entanto os Evangelhos canônicos conservam e relatam acontecimentos negativos, tanto concernentes a Jesus, como à honestidade de Maria.
Por conveniência da Igreja e da religião nascente, escolheram-se, dos escritos atribuídos aos Apóstolos e dos muitos outros autores que, por devoção, fizeram suas estórias, aqueles que mais estivessem de acordo com os interesses imediatos da doutrina.
O primeiro Evangelho, possivelmente o chamado dos Hebreus, talvez tenha sido a fonte para o de Mateus, escrito em aramaico, entre os anos 40 a 50. Apareceu por escrito cerca de dez anos após a morte de Jesus e estava saturado de relatos miraculosos e emocionantes, quando a ele eram atribuídos milagres maravilhosos, para não se dizer absurdos, tais como fazer uma palmeira, no deserto, inclinar-se para que José pudesse colher um fruto para dessedentar Maria e, logo a seguir surgir um "anjo" que levou uma das suas folhas para o céu, para ali plantá-la ( Apócrifo de Mateus, Cap.XX/ XXl, fl. 219/220).
Fazer José, seu pai, ressuscitar um morto, colocando um lenço sobre a cabeça do cadáver. ( Et intravit domum defuncti, et sudarium quod habebat super caput suum posuit super faciem eius qui iacebat in grabato, et dixit: “Salvet te Iesu”. Et continuo surrexit maotuus de lecto.)- Mat.Cap. XL-fl.240)
Fazer com que as águas do Jordão se separassem para a passagem de uns leões que o acompanhavam. ( Post hæc Iesu transivit Iordanem cunctis videntibus cum leonibus, et acqua Iordanis divisa est dextram et ad sinistram”.
Jesus penetrar numa caverna onde se encontrava uma leoa com seus filhotes recém-nascidos. Os leõezinhos brincam com Jesus e o adoram, sob as vistas compassivas da leoa.
São inumeráveis os milagres de Jesus contados por Mateus, inclusive muitos que levaram à morte pessoas que o contrariaram, como meninos com os quais altercava e, até, um seu professor.
Esse Evangelho desapareceu e, após o ano 65, surgiu outro a ele atribuído, em grego, que era o idioma literário na época, e mais tarde traduzido para o latim.
Mateus, no início do seu Evangelho provocou muita especulação sobre a origem de Jesus, fazendo relato que deslustra a imagem da sua mãe.
Houston Stewart Chamberlain, que era filho de um general inglês e genro de Richard Wagner, em seu livro: "Os fundamentos do século XIX", diz ter feito descoberta sensacional de que o pai de Jesus era ariano. Chegou a apresentar provas, baseando-se em fontes históricas, originárias do primeiro século da nossa era e foram contadas e difundidas por inimigos de Cristo, judeus e pagãos. O texto dizia o seguinte: "Mirian foi repudiada pelo marido, carpinteiro de profissão, por ter se convencido de que ela cometera adultério. Deu à luz um filho cujo pai se chamava Pantera. No Talmude, o livro religioso mais importante pós-bíblico mencionam-se os nomes "Ben-Pantera" ,e "Jesus Ben-Pantera". No Talmude babilônico fala-se de "amante Pandera". Mais adiante lê-se: Em Pumbedita dizia-se " s'tath da", isto é, infiel ao marido. (Sabbat l04-B; Sanhedrin 67-A).
Pandera seria um estrangeiro legionário romano ou grego. Como surgiram essas informações? Referiam-se os cristãos a Jesus como filho da virgem. Os judeus aferraram-se a este oportuno ponto de apoio, apoderando-se, mais que depressa deste mistério para difamá-lo. Por escárnio os judeus chamavam ao "filho da virgem", "ben ha Pantera", isto é, filho de uma pantera.
Numa carta de Herodes a Cláudio (Tibério), dizia: "Perguntas se agora alguém se identifica com o Messias. Não encontrei ninguém ultimamente que o fizesse. O último de que me lembro foi um homem chamado Joshua bar Joseph, natural da Galiléia. Quando, sob o reinado do meu tio Antipas, eu era magistrado em Tiberíades, possuía ele, entre pessoas incultas um número considerável de seguidores. Costumava pregar na margem do lago a grandes multidões. Era um homem de aparência impressionante, e, embora seu pai tivesse sido mero artesão, dava-se como descendente de David. Disseram-me que havia um escândalo ligado ao seu nascimento. Contava-se que um tal Pantera, um soldado grego da guarda do meu avô, seduzira sua mãe, que trabalhava em tapeçaria para o Templo. Esse Joshua fôra um menino prodígio, o que é, aliás, um fenômeno comum entre os judeus. Costumava ele pensar muito em religião. E, havia talvez fundamento na sua origem grega, pois ele achou o judaísmo um credo muito fastidioso, coisa que nenhum verdadeiro judeu faz, e começou a criticá-lo como inadequado para atender às necessidades humanas. Tentou, de um modo ingênuo, fazer o que, desde então, Filo tem feito tão esmeradamente: conciliar a literatura revelada judaica com a filosofia grega. Isso me faz lembrar o que na arte poética Horácio escreveu a respeito de um pintor que, representando a figura de uma mulher, fez com que seus membros inferiores terminassem na cauda de um peixe. Bem, Joshua ben Joseph ou ben Pantera possuía essa tendência para a filosofia grega. Travou conhecimento com um pescador chamado Tiago dado a coisas literárias e que assistia preleções na Universidade Epicureana de Gádara... o fim da estória foi que o então Governador da Judéia e Samaria, Pôncio Pilatos, prendeu-o por originar desordens públicas e entregou-o à Corte Religiosa de Jerusalém, onde foi condenado à morte por blasfêmia. Morreu no mesmo ano em que a Deusa Lívia, e seus discípulos o abandonaram. Muita gente diz que se viu a sua alma depois de ter morrido, subir ao céu, tal qual a de Augusto e Drusila. Proponho, porém, terminar com essa sandice de uma vez por todas. Ha três dias, apenas, prendi e mandei executar Tiago que parece ser o principal cérebro do movimento". (Cláudio o Deus, e Messalina - Robert Graves - fls.320/322).
Os outros Evangelhos surgiram décadas após a morte de Jesus, sendo que o de João só apareceu entre os anos 96 e 98, ou mesmo após a sua morte, como consta em observações na Bíblia de Jerusalém.
Numa época em que a alfabetização era privilégio de uma pequena minoria, a escrituração dos fatos para a história era processada por escribas, quase sempre recrutados do clero que atendia de boa vontade, tanto aos monarcas quanto à aristocracia, com uma dupla finalidade: prestar um serviço bastante rendoso para si e fazer uma severa espionagem a favor da Igreja.
João, chamado de analfabeto por Paulo, não poderia ser o redator do Evangelho que lhe é atribuído, pois este só poderia ter saído da pena de um erudito. O seu escritor poderia ter auxiliado a João fazendo uma redação com base no que lhe era fornecido e passando para a escrita o que só existia através de tradição que já se transformava em lenda.
Nem todos os Apóstolos deixaram Evangelhos, não querendo isso dizer que não possam ter surgido escritos em seus nomes. Dos discípulos de Jesus, a Igreja aceitou apenas dois: o de Mateus e de João. Recusou como heréticos os de Tiago, Tomé, Nicodemos, Bartolomeu, inclusive um atribuído a Maria Madalena. Pedro que foi o discípulo talvez de maior confiança de Jesus, teve o seu Evangelho recusado. Conteria, realmente, heresias ou revelaria fatos que não interessavam àqueles que pretendiam "fazer" uma nova religião?
Os relatos de Maria Madalena seriam da maior relevância, pois trariam à luz os pensamentos íntimos de Jesus, aqueles revelados na intimidade de colóquios amistosos, sua verdadeira psicologia como homem comum. Jesus não seria uma pessoa anormal e certamente tinha sua sexualidade como todos os jovens e ninguém melhor do que Madalena para fazer essas confidências. Isso no caso de ter sido Madalena uma mulher apresentável, de família normal, e não uma pobre mendiga atacada de doenças várias como seria natural numa louca furiosa, atacada por sete demônios, e, possivelmente ignorante e analfabeta.
Mateus, em
Sendo assim, através dos Evangelhos pouco ou nada se sabe da sua verdadeira intimidade e sua verdadeira psicologia.
Entretanto a Igreja aceitou os Evangelhos de Marcos e Lucas, que não foram discípulos de Jesus. Marcos foi discípulo de Pedro e escreveu sobre o que lhe foi contado a respeito de Jesus, o que não poderia ser muito, pois a convivência dos discípulos com o Mestre não foi longa: pouco mais de um ano, o que não é tempo suficiente para se conhecer uma pessoa intimamente, quando o relacionamento não é de igual para igual, e sim de um pregador para seus iniciantes.
Lucas não conheceu Jesus. Influenciado por Paulo, fez indagações e investigações dentro das possibilidades da época sobre a vida de Jesus, escrevendo seu Evangelho só após o ano 70, quando Jerusalém já tinha sido destruída por forças romanas, conforme se subentende no capítulo 19, versículos 4l a 44. A Igreja diz que essa revelação foi profetizada por Jesus, numa interpretação puramente de cunho idealista, que não pode ser considerada quando se faz um estudo independente de ideologia.
Paulo era de Tarso, na Cilícia, província sob jurisdição romana, fariseu, doutor da Lei, certamente bastante influente entre os sacerdotes do Templo, e logo após a morte de Jesus, foi um dos mais severos perseguidores, tanto dos discípulos, como dos seus seguidores. Era cruel e fanático. Em Gálatas,1:13, traça sua própria mentalidade:
" Porque já ouvistes qual foi antigamente a minha conduta no judaísmo, que sobremaneira perseguia a Igreja de Deus e a assolava. E como na minha nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais".
Foi Paulo quem ordenou e presidiu a primeira execução pública de um seguidor de Jesus: Estevão. A partir daí, levou à morte dezenas de "hereges" na concepção judaica.
Paulo foi um apóstata do judaísmo. No Evangelho "Ascension de Santiago,( Los Evangelhos Apócrifos, Biblioteca de Autores Cristianos - Madrid -1963,fl.73), consta o seguinte: "Dicen, pues, que era griego, hijo de padre y madre de la misma condición. Que subió a Jerusalén y que permaneció alli durante algun tiempo. Que pretendió por esposa a una hija del (sumo) sacerdote, y que por esto se hizo prosélito y se circuncidó. Que después, al no poder conseguirla, se llenó de ira y escribió contra la circuncisión y el sábado y la Ley".
( Eita faskousin auton einai Ellhna, kai EllenidoV mhtroV kai EllhnoV patroV paida. Anabebhkenai de eiV Ierosoluma, kai cronon ekei memnhkenai epitequmhkenai de qugatera tou ierewV proV gamon agagesqai, kai toutou eneka proshluton genesqai, kai peritmhqhnai. Eita mh labonta thn kophn, wrgisqai, kai kata epitomhs gegrafenai, kai kata Sabbatou kai nomoqesiaV.)
Paulo, convertido, não se sentia bem entre os apóstolos, entrando muitas vezes em atrito com eles devido ao grau de instrução que o separava daqueles pobres e humildes pescadores.
Em Gálatas,
Em Atos,
De inimigo dos "cristãos" (ainda não conhecidos por esse nome) passou a ser um novo e fervoroso defensor, transferindo para a nova idéia todo o fervor com que defendia o judaísmo. Conheceu e conseguiu "converter" um intelectual para a nova doutrina, e foi assim que Lucas surgiu no cenário, transformando-se em escritor e historiador da nova ordem, recebendo e herdando de Paulo todo o seu fanatismo, e é, como se supõe, o autor de Atos dos Apóstolos.
Lucas não conheceu Jesus porém o aceitou como lhe foi revelado por Paulo: filho de Deus, milagroso, que ressuscitou dos mortos, e que seria facilmente aceito pelo povo como um enviado do céu para a salvação dos pecadores, reservando aos seus seguidores um lugar de delícias após a morte, já que em vida só conheciam sofrimentos e misérias.
Lucas saturou os seus escritos com dezenas de fatos fantasiosos, como aparecimentos de anjos, seres espirituais que agiam fantasticamente, inclusive libertando preso de calabouço sob a vigilância de soldados; aparecendo à "Virgem Maria" para lhe dizer que iria ter um filho divino. Fez aparecer a três pastores (certamente humildes, ignorantes e analfabetos) uma multidão de anjos dos exércitos celestiais. Para agradar a Paulo, seu mestre, diz que o próprio Jesus lhe apareceu mandando que fosse pregar em Roma.
Alfred Poizat, em sua obra "La vie et l'œuvre de Jesus" , edição 1930, diz: " O conjunto dos Evangelhos é composto de retalhos entre os quais há vácuos, mais do que vácuos, verdadeiros buracos e numerosas obscuridades que é preciso esclarecer".
Renan, historiador e filósofo francês, em sua "Vida de Jesus", Paris, 1863, que foi recebida pelo público católico com grande escândalo, afirma que o primeiro Evangelho foi o de Marcos, e foi ditado por Pedro, sendo por isso de um laconismo imperdoável, pois Pedro não ligava a menor importância ao nascimento de Jesus, à sua genealogia, nem à sua infância. (Jesus e Sua Doutrina, pg.156).
Quanto às genealogias constantes do capítulo I, de Mateus, e III, de Lucas, que dão os ascendentes de Jesus até Adão, numa época em que não havia escrita e nenhum meio de se fixar qualquer fato histórico, Paulo tanto as repudia como lhes fazia zombaria. (I-Tim.1:4).
Enfim "os Evangelhos foram escritos com base na tradição oral, contada por gerações de anciãos, que suprimiam ou acresciam, como sempre sucede a quem conta um conto, fatos criados pela imaginação do povo, de acordo com os sentimentos de cada um, coordenados por escritores judeus, que compuseram, igualmente, um Evangelho chamado "dos hebreus" que, por seu turno, serviu de base aos quatro adotados pela Igreja, isso anos após a "ressurreição". (Jesus e Sua Doutrina, pg.155)
Evangelho de Bartolomeu, também conhecido como Natanael.
Algumas passagens do seu suposto Evangelho.
Esse apóstolo não teve grande projeção entre os discípulos de Jesus. Ao ser convocado para fazer parte do grupo, respondeu com ironia, referindo-se a Jesus: “ Pode sair algo de bom de Nazaré?” (João, 1:46).
Seria, possivelmente, um desocupado, pois quando Jesus o conheceu, ele se encontrava, despreocupadamente, debaixo de uma figueira. (João, 1:48)
No Evangelho a ele atribuido existem passagens que merecem comentarios, por serem curiosas.
No capítlo 1°.
“ Depois que Jesus Cristo ressuscitou de entre os mortos, acercou-se dele Bartolomeu e o abordou da seguinte maneira:
- “Revela-nos, Senhor, os mistérios dos ceus”.
-“Jesus lhe respondeu, dizendo:”Se me despojo desse corpo carnal, não poderei te revelar.”
( Meta thn ek nekrwn anastasin tou kuriou hmon Ihsou Cristou, prosel [qwn o ] BarqolomaioV ton kurion eperwta legon.
- Apokaluyov moi, [kurie], ta musthria twn ouranwn.
- ApokriqeiV de o IesouV eipen autw. - Ean apwsomai to soma ths sarkoV, ou dunhsomai eipein soi.
Em outra passagem:
- Bartolomeu: “Tenho algo a dizer-te, Senhor.
- Jesus: “Já sei o que vais dizer-me. Dize pois o que quiseres. Pergunta e eu te darei razão.
Bartolomeu: “Quando ias ao cominho da cruz, eu ia seguindo de longe. E te vi pendente do madeiro e os anjos que, baixando dos céus, te adoravam. Ao sobrevirem as trevas eu estava contemplando tudo, e vi como desapareceste da cruz, e só pude ouvir os lamentos e o ranger de dentes que se produziram subitamente nas entranhas da terra.Dize-me, Senhor, para onde fugiste da cruz? (Evang. De Bartolomeu, fl.542)
- O de BarqolomaioV eipen: - Kurie, ote apercou en tw stairw kremasqhnai, egw apo makroqen hkolouqoun kai eidon se en staurw kremasqhnai, kai tous aggelouV katercomenouV ek twn ouranwn kai proskunountaV se. Kai ote to skotoV egeneto. Egw eqewroun, kai eidon se afanh gegonota apo tou staurou, fwnhV de monon hkouon en toiV katacqonioiV kai odurmon kai brugmon afnw genomhnon megan. Apaggeilon moi, kurie, pou an aphlqeV apo tou staurou. (?)
Jesus: -”Quando desapareci da cruz, baixei ao inferno para tirar dali a Adão e a todos os que com ele se encontravam, atendendo à súplica do arcanjo Miguel.
Ihsou: - Ote gar afanhV egenomhn apo tou staurou, tote kathlqon eis ton aden ina agagw ton Adam kai pantas tous met autou kat(a) thn paraklhsin tou arcaggelou Micahl.
Sem a versão do original grego:
Bartolomeu: - “O que significa aquela voz que se ouviu?
Jesus: - “Era a voz do Inferno, que descia a Belial. No meu entender Deus se fez presente aqui quando desci, pois, com meus anjos ao Inferno para romper os ferrolhos e as portas de bronze. E os anjos dirigiam seus clamores às potestades dizendo: Levantai, óh príncipes, as portas e fazei correr as cancelas eternas, porque o Rei da Glória vai baixar à terra.” E o inferno disse: “ Quem é esse Rei da Glória que vem dos céus a nós?
No capítulo 2°:
Estavam os apóstolos em um lugar chamado Chilturá (Chiruvin, Chritir), com Maria mãe de Deus. (Há de se observar que o título de Mãe de Deus só foi adotado no Concílio de Nicéia, no ano 325, donde se vê que esse escrito nunca foi de Bartolomeu). E Bartolomeu, acercando-se de Pedro, André e João, lhes disse: “ Porque não pedimos à Cheia de Graça que nos diga como concebeu ao Senhor e como conseguiu levar em seu seio e dar à luz ao que não pode ser gerado? Mas eles vacilaram em perguntar-lhe. E disse Bartolomeu a Pedro: “Tu, como corifeu e nosso mestre que és, acerca-te e a interrogue”.
Pedro diz a João: “Tu, como virgem, irreprochável e amado, acerca-te e lhe pergunte”. Mas, ao ver a todos vacilantes e em desacordo, Bartolomeu se acercou dela e lhe disse: “Deus te salve, tabernáculo do Altíssimo; aqui viemos todos os apóstolos a perguntar-te como concebeste [ ao que é incompreensível, e como levaste em teu seio a Aquele que não pode ser gerado, ou como, enfim, deste à luz tanta grandeza].
Maria responde: “Não me interrogueis acerca desse mistério. Si teimo em falar sobre ele, saltará fogo da minha boca e consumirá toda a terra”.
( H de Maria legei autois. [Mh] erotate me peri tou musteriou toutou. Ean [gar] arxwmai legein umin, pur ek tou stomatos mou exeleusetai kai kataflegei pasan ten oikoumenhn.”
EVANGELHO DE SANTIAGO, O MAIOR
Este evangelho, julgado apócrifo pela Igreja, foi proscrito pelo Papa Inocêncio XI, no ano de l682.
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