Religião e Fé

Religião: “ Conjunto de idéias sobre coisas e princípios morais, cuja base reside na crença da existência e do poder de entidades sobrenaturais. As idéias sobre as coisas permitem uma certa compreensão do mundo e da situação do homem dentro dele; os princípios morais servem para orientar a ação do indivíduo e dar um sentido para a sua vida. Caracteriza-se ainda pela crença na possibilidade de comunicação com o sobrenatural, mediante atos simbólicos que constituem um ritual. Distingue-se das ciências e da filosofia por não fundamentar-se prioritariamente na observação, na experiência e na razão, mas na intuição e na fé.” (Enciclop.Tudo, pag.1075)

A fé religiosa nada mais é que um estado de espírito em que se crê num símbolo imposto pela tradição sem qualquer apoio na ciência ou na naturalidade dos fatos. A fé não aceita exames ou análises. Foge ao raciocínio e é aceita e imposta por seitas em determinada fase ou circunstância. Fatos absurdos para a ciência são dogmatizados e se incluem no folclore de dominação das massas incultas ou susceptíveis a influências do sobrenatural.

A aparição de Fátima é um dogma de fé para a Igreja atual depois de haver passado por fases em que os próprios sacerdotes a negavam. Aceito de maneira irreversível pela massa popular, entrou para o folclore da Igreja como dogma.

Dizem que “A Virgem Maria” apareceu a três crianças camponesas, analfabetas, de 10, 9 e 7 anos de idade, respectivamente, no dia 13 de maio de 19l7; ela, em cima de uma árvore. A “Virgem Maria” marcou novo encontro com essas crianças para todo dia 13 de cada mês .e mandou que se rezassem “terço” todos os dias. Pode-se dizer que isto foi uma fé imposta.

O aparecimento de anjos, desprendendo-se das mitologias antigas, entrou para a mitologia das religiões como fatos indiscutíveis para os adeptos dos cultos que o admitem, tornando-se hereges os que não os aceitam. Lendas como Papai Noel povoam o pensamento da infância e transformaram-se em decepções e frustrações quando seus mistérios se desvendaram. Tentou-se, no Brasil, substituir Papai Noel por um Papai Índio, o que não foi aceito pelo povo.

A existência de penas eternas, em infernos de fogo e enxofre, são artigos de fé para uma grande parte da humanidade, nela incluindo, mesmo, os continuadores dos que forjaram tais lendas para se imporem como xamãs.

A fé exacerbada leva a excessos quando é contestada, provocando hecatombes como as mortandades das lutas religiosas, nas perseguições que levaram à Noite de São Bartolomeu, aos genocídios dos albingenses, ou ao morticínio de Salem em 1692, quando 19 pessoas foram enforcadas, acusadas de feitiçaria. Em 1697 o juiz Samuel Sewal retratou-se publicamente do seu erro jurídico, já sem resultado para suas vítimas assassinadas. Tudo isso sem falar nas numerosas cruzadas, quando centenas de milhares de estúpidos crentes foram trucidados em nome de uma fé subjetiva, explorada e excitada por soberanos e pontífices que nada mais queriam que soluções para suas ambições pessoais.

A vida da fé se extingue no momento em que a luz da compreensão ilumina os cérebros embotados de misticismo. O céu, colocado nas alturas pela fé, dogma de velhas religiões, já se encontra deslocado para locais não identificados desde o uso da luneta de Copérnico que diluiu em vapores ensinamentos milenares, quando se viu que o firmamento não era exclusividade para a residência dos deuses.

A fé é como uma irmã gêmea da superstição. Aos milhões de peregrinos que procuram o sertão do Ceará, em romarias onde a miséria vai de braços com a ignorância de uma massa maltrapilha e de fanáticos em busca de um mito a que chamam Padre Cícero, representa, para as elites das cidades, uma demonstração de fanatismo e cegueira. Uma peregrinação às grutas de Lourdes já é uma demonstração de fé aristocrática. Quer se busquem os oráculos de Delfos ou de Dodona, dos egípcios ou dos negros africanos, Roma ou Aparecida, as manifestações de fé são as mesmas, ridículas para aqueles que as observam de um plano mais racional. A fé não passa de um ópio que embriaga as multidões e as transporta do são raciocínio para uma sujeição voluntária e obscura. As superstições são dogmas de fé para os ignorantes que querem ver no desconhecido uma realidade que só existe em seus pensamentos.

Nenhuma religião é verdadeira porque todas elas foram engendradas por homens, místicos ou calculistas, de acordo com a época e o meio em que viveram. Em todas existem coisas boas que atraem as massas, para tornarem boas as pessoas e fazê-las submissas e humildes ante o orgulho e a prepotência dos seus ministradores, que, quase nunca dão o bom exemplo e o bom cumprimento das suas pregações. São predicações teóricas e utópicas que a prática mostra serem inexeqüíveis.

As religiões e as divindades, dependem de pontos geográficos. Somos católicos, ou cristãos porque nascemos no ocidente. Se tivéssemos nascido na Índia, desconheceríamos Jesus e as religiões que usam o seu nome. Do mesmo modo se fôssemos esquimós, ou zulús do interior africano. Santa Jacinta de Mariscotti, virgem, festejada em 30 de janeiro é completamente desconhecida na Polinésia.

Milhares de denominações e seitas existem só no cristianismo. Nos Estados Unidos são 2500 denominações nas Igreja Cristãs e, em todo o mundo esse número chega a 20000, que se digladiam entre si, dizendo-se cada uma a detentora da verdade absoluta, falsas e heréticas as demais.

"A diversidade das crenças e práticas religiosas em todo o mundo é deveras assombrosa, indo da meditação do zen-budista, no Japão, à tortura que o homem santo hindu aflige a si mesmo, na Índia; do pregão do muezim islâmico do Oriente Médio às declarações extáticas dum pentecostal, na América; do suicídio em massa na Guiana, ao casamento em massa na Coréia". (Despertai 8/7/84).

Qualquer coisa que evocasse uma sensação de assombro era reverenciada como expressão do poder divino, ou de mistério, era atribuído à manifestação de um deus. E foi dessa maneira que surgiram os deuses.

Sumérios, egípcios, hindus, chineses e todas as outras civilizações inventaram suas próprias religiões. De todas as Igrejas, a Católica é a mais pródiga em instituir novas divindades.

Pio IX elevou aos altares um famoso Inquisidor de Saragoça, nomeado pelo famigerado Cardeal Torquemada, Pedro Arbues de Epila, responsável por milhares de "hereges" assados nas fogueiras em defesa da fé e "para a salvação das suas almas."

Bento XV canoniza Joana D'Arc, depois de ter sido ela queimada como herética pela Igreja.

Pio XII resolveu fazer com que Maria, mãe de Jesus subisse aos céus em corpo e alma, isso dois milênios após a sua morte e sepultamento, em local, hoje, completamente desconhecido.

Paulo VI, para agradar politicamente os EE.UU. e seus minguados católicos, eleva aos altares uma nova santa, aliás de nome bastante complicado: Elizabeth Ann Bayley Seton.

O atual papa, João Paulo II, ao que parece, deseja ser o maior fornecedor de santos aos altares católicos: reabre os processos de beatificações de 6832 religiosos mortos na guerra civil espanhola, fiéis admiradores do Generalíssimo Franco.

Em janeiro de 1984 canoniza 103 santos na Coréia do Sul, mortos "pelos comunistas". Em 24/4/79 canoniza Jacques Laval, francês, e Francisco Col, espanhol. Em 14/10/79, Enrique de Osso, espanhol. Em 22/6/80, Maria Guyart, canadense. Pedro Betancourt, na Guatemala. Francisco de Montmorency, francês. Kateri Tekakwitha, na Índia Em 26/10/80: Luigi Orioni, Maria Anna Sela e Bartolo Longo, italianos. Em 18/2/80: Domingos Ibanez de Erquicia, espanhol. Francisco Shoyenon, Jacques de Santa Maria, japoneses. Lucas do Espirito Santo, Antonio Gonzalez, Miguel Aozaraza, espanhóis. Mateus Koyoye, Tomaz São Jacinto, Vicente de la Cruz, Miguel Kurobiye, Madalena de Nagazaki, Maria de Omura, Lazaro de Kyotto, japoneses. Guilherme Courtet, francês. Lourenço Ruiz, filipino. Em outubro de 1982: Salvadore Lilli, italiano, e Jeanne Jougan. Em 7/83: foi canonizado o famoso pintor Fra Angélico. Em 5/11/1982: Angela de la Cruz Guerrero Gonzales, de Sevilha. Em 12/83: o monge polonês Adam Chmialowski. Em março de 1980, nosso conhecido Padre José de Anchieta.

Já não se fazem mais filas para a santificação; o Papa abre escancaradamente os portões dos tronos celestiais e os santos vão entrando aos borbotões.

Em 1985 beatifica a freira estuprada Maria Clementina Anaurita Neuzapeta, no Zaire. Para agradar politicamente o governo militar daquele país africano, perdoa seu assassino, o coronel Pierre Openze.

Em suas andanças turísticas por todos os países do mundo faz-se necessária a presença de santos nativos para internacionalizar a côrte celeste. Nessa heterogeneidade de representantes terrestres ao lado do trono divino há necessidade da presença de representantes dos bandidos e celerados, pois a democracia exige a presença de todas as facções. Assim, para o famoso D. Juan, conquistador, assassino e vilão, já está sendo, por João Paulo II, construído o seu trono ao lado dos grandes da Igreja.

O Brasil não poderia deixar de ter um representante dos assaltantes e ladrões junto ao trono divino. Em 9/12/84, o Arcebispo de São Paulo pretendia celebrar um ato público no Largo de São Francisco em memória de Joilson de Jesus, assaltante assassinado por sua vítima de assalto. Talvez fosse a primeira providência para fazer do ladrãozinho um santo. Um jornalista, revoltado, diz: "Vamos ver se esses padrecos sem-vergonha têm coragem de fazer uma homenagem a um bandido" (Veja, 19/12/84).

Religião é como política: Quando desejamos recrutar para nossas fileiras novos adeptos, exaltamos as qualidades e virtudes dos nossos candidatos, menosprezando o concorrente.

O mesmo se dá com as religiões, e não se explica ao povo que a crença é uma questão unicamente geográfica. Os nascidos em nações que se formaram sob a influência das conquistas do Império Romano, quando as “legiões” eram assessoradas por frades incumbidos de levar o cristianismo à força das baionetas aos povos subjugados, são cristãos, por atavismo, não por opção.

O mais fervoroso cristão, beato ou fanático, teria as mesmas convicções se houvesse nascido na Índia? Ou no Irã? Ou entre os hotentotes africanos?

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