Religião ou Superstição

“A religião se deve ao obscurantismo dos padres que a inventaram.
A ambição de uma casta sacerdotal criou, fraudulentamente ou não,
dogmas ininteligíveis, práticas supersticiosas, às quais pouco a pouco,
sujeitou os fieis pela tradição, educação e culto”.

(Irineu Wilges - Cultura Religiosa)

O espírito religioso teve o seu início no alvorecer da humanidade, inicialmente, devido ao medo do desconhecido, especialmente dos fenômenos naturais

Uma força poderosa destruía, incendiava, amedrontava e matava. O primeiro desejo que se manifestou através do medo, para que esses fenômenos nãos os atingissem, já foi a primeira manifestação daquilo que, futuramente, chamar-se ia temor religioso, ou supersticioso.

Desde a mais remota era, no despontar da inteligência racional, alguém se prevaleceu de um acaso para se impor, pela primeira vez, precariamente, sobre seus semelhantes.

De três indivíduos atingidos por um raio, um morreu, outro se feriu gravememte, e o terceiro saiu ileso, suponhamos. Este, aproveitando-se do acaso, jactou-se de ter-se saído do incidente por um poder pessoal, daí adquirindo certa admiração e respeito por parte dos seus companheiros.

Da progressão desse raciocínio, surgiu o embrião do primeiro “feiticeiro”, aquele que se vangloriava de poder exercer influência sobre os fenômenos naturais.

Talvez o segundo grau do progresso da humanidade tenha sido o curandeirismo. Por força do primeiro acaso que fez surgir o feiticeiro, surgiu o “curandeiro.” Da união dessas duas crendices, teria surgido o “pajé”, chefe espiritual, misto de sacerdote, profeta e médico. Esses poderes já nasceram cercados de mistérios, só transmissíveis aos próprios descendentes, dando início à uma casta sacerdotal que, num futuro ainda distante, viria a dominar e escravizar uma grande parte, digamos, da humanidade.

Da superstição para a religião, só houve, praticamente, mudança de denominação, pois são irmãs siamesas.

O espírito religioso foi, progredindo, do estágio dos “totens”, a amuletos, patuás, escapulários, bentinhos, breves e outros inventos, usados abusivamente pela Igreja Católica, até recentemente, sendo que, agora, o povo mais esclarecido, não mais troca o seu dinheiro por saquinhos de pano contendo jaculatórias, indulgências ou orações milagrosas, passando a julgá-los ridículos e anti-higiênicos.

Herdando o costume das Vestais, que mantinham sempre aceso o fogo sagrado nos seus templos, outras crenças passaram a adotar velas ou luminárias de azeite, acesas permanentemente ante imagens, ídolos e divindades diversas. A Igreja Católica mantém sempre acesa uma lâmpada junto ao Sacrário, local onde dizem estar Jesus com toda a sua divindade, em corpo presente, aprisionado num minúsculo pedacinho de pão ázimo.

Os antigos feiticeiros-sacerdotes ainda persistem entre tribos indígenas, africanas e australianas, como também em diversas ilhas do Oceano Indico. Entre os gregos e os romanos, que atingiram civilizações altamente organizadas, eram comuns os “Oráculos” cheios de mistérios, dedicados a divindades diversas e à prática de conselhos, ou perseguições a hereges, mesmo que fossem personalidades ilustres, como aconteceu a Sócrates, em Atenas.

As religiões, na verdade, foram inventadas e exploradas por um clero astucioso, que, iludindo a ignorância e a superstição do povo, transformou-se numa casta exploradora e escravizadora, principalmente das consciências e inteligências mal formadas.

Surgiram, nas diversas religiões, teólogos de linguajar ambíguo, tentando explicar o inexplicável, emaranhando-se num turbilhão de retórica que confunde, só convencendo aqueles desprovidos de discernimento próprio, sem, porém, convencer aos que se dão ao trabalho de um mínimo de raciocínio.

Segundo Augusto Comte, a humanidade passou do estado supersticioso, ante os fenômenos naturais, para o discernimento, também supersticioso, da crença, infundida no sobrenatural.

Com a evolução do espírito religioso, ou supersticioso, o medo passou a fazer parte dessa evolução, não mais de trovões e relâmpagos, mas sob várias formas de castigos, infernos eternos, purgatórios de longos sofrimentos, que ainda aterrorizam a maior parte da humanidade, principalmente os católicos romanos e os chamados “protestantes”, seus apóstatas e contestadores.

Na religião islâmica, os pecadores são acorrentados, dois a dois, suas roupas embebidas de alcatrão, e incendiadas. Outras vezes, o castigo é de extrema repugnância: “ser-lhes á dado a beber o pus que sai das feridas dos condenados” (Alcorão, Sura 14:16 e 49).

Ao lado da parte aterrorizante das religiões, imbuídas de horrores, tiveram que inventar a recíproca, donde se auferia maior domínio sobre os crentes explorados, e maiores lucros e dividendos para suas contas bancárias. Diversas modalidades de paraísos celestiais poderiam ser conseguidos através de uma existência passiva, numa escravidão consentida. Esses paraísos celestiais são apresentados e vendidos, de acordo com a mentalidade de cada povo.

Para os índios americanos, são intermináveis caçadas de búfalos em pradarias ensolaradas.

Para os islamitas e beduínos, seriam bosques de árvores frondosas, rios de águas sempre límpidas, onde corriam, inclusive, leite e mel. Hurís, sempre virgens, amorosas, da mesma idade e donzelas de seios firmes (Sura 78:33).

Para os guerreiros vikings tombados em combates, seria uma eterna e interminável batalha contra os gigantes, sob o comando do Deus Odin.

O paraíso dos católicos já é mais austero, solene e monótono. Ao lado e à direita do trono de Jeová, estará Jesus com toda a sua glória, e à esquerda, a terceira pessoa da Trindade, o Espírito Santo em forma de uma linda e alva pomba, esvoaçando eternamente em volta dos seus parceiros na divindade.

Legiões de anjos de todas as nove classes, irmanados democraticamente, entoando cânticos gregorianos ao som de milhares de órgãos, enchendo a abóbada celeste de comoventes melodias. Em ordens subseqüentes virão os santos canonizados pelos Papas através dos poderes infalíveis que se auto-outorgaram. Uma verdadeira e santa democracia não distinguirá santos africanos ao lado de santos ingleses; japoneses e chineses e mesmo santos esquimós, caso os Papas tenham se lembrado desses habitantes de longínqüas e pobres paragens polares.

A seguir vêm os próprios Papas, seguidos dos Cardeais, Arcebispos, Bispos, Cônegos, Frades e os Curas das mais diversas categorias. Como os judeus discriminavam muito as mulheres, sem a reprovação do Deus de Abrahão, Isaac e Jacob, as Freiras e Irmãs Leigas ocuparão lugares mais distantes, ao lado das beatas que ofertaram os seus bens à Igreja, quando em vida. A seguir vem velhos fazendeiros que legaram à Igreja suas terras e fazendas em troca de indulgências que os credenciariam para uma entrada direta no paraíso.

Todas essas centenas de milhões de ressuscitados que se livraram das penas eternas no inferno, estarão, pelo resto da eternidade, prostrados ante o trono divino, louvando a Deus, adorando-o e rezando ladainhas intermináveis “per omnia secula seculorum”. E Deus, comodamente sentado no seu trono, considerar-se á recompensado ao ver a beleza e a humildade de toda a sua criação submissa e prostrada aos seus pés!

Os católicos romanos têm maiores chances de receberem as benevolências divinas que os adeptos de outras religiões. Pode-se abreviar o tempo a que foram condenadas as almas pecadoras, no pré-inferno, a que deram o nome de “purgatório”. Através de doações, poder-se á obter as poderosas indulgências. Tanto maior o donativo, maior número de “missas” que puder pagar, menor será o tempo que a alma permanecerá no purgatório, espécie de ante-câmara de tortura, onde as almas são purificadas, mais ou menos como o que faria a “Santa Inquisição” da Igreja Católica, mais tarde, queimando nas fogueiras os “hereges” nos seus corpos, para purificação e salvação das suas almas, num dignificante gesto de caridade e amor ao próximo.

Mesmo o castigo máximo, no inferno, para os que cometeram faltas mais graves, os chamados “pecados mortais”, de acordo com um catálogo da Igreja, passíveis de condenações ao eterno fogo sulfuroso, onde só há dores e ranger de dentes, há uma derradeira esperança. Para esses casos, os Papas criaram uma “indulgência plenária”, esta de obtenção mais dificultosa e cara, só acessível ao pecador de classe mais rica. Essa “indulgência” tem o condão de perdoar todos os pecados, sem nenhuma exceção, e levar a alma do pecador indulgenciado diretamente para o paraíso celeste.

Mesmo os pobres, aqueles para quem Jesus pregava, podem obter uma classe de indulgência, através de missas ou pequenas doações do pouco que possuem, mas não podem escapar de alguns anos ou séculos das penas do “purgatório”, possivelmente tão atrozes quanto as do inferno, porém, temporárias.

Freud diz: “A religião provem de uma neurose universal, uma neurose universal de culpa”.

A alma humana é como a massa de que o oleiro faz suas obras. E’ maleável, e facilmente aceita a forma que se lhe quer imprimir. Se desde a infância o indivíduo viveu entre antropófagos, não vê nada de anormal em devorar um ser humano. Tal fato aconteceu na infância do nosso país, quando um Bispo, por fatalidade com o nome de Pero Fernandes “Sardinha” foi devorado por indígenas antropófagos, talvez mais por vingança, caso os índios Caetés já tivessem ciência de que esse Príncipe da Igreja era um ardente defensor da escravização e aculturação dos indefesos habitantes da terra onde viviam.

A uma casta donzela que tenha passado sua infância entre o cláustro e a Igreja, um simples e inocente sorriso masculino repercute no seu íntimo como uma afronta repleta de pecados hediondos.

O pecado é uma falta completamente subjetiva. Qualquer transgressão a um canon é considerada uma falta; se o canon é religioso, é chamada de pecado; se contra os bons costumes, é um crime. Para ambos os casos existe uma vasta legislação.

O pecado, se considerado como um atentado às leis divinas, tem uma escala infinita de ponderações. Primeiramente há que se definir o que são leis divinas. Não existe qualquer prova de que uma divindade tenha legado à humanidade algo escrito. Tudo quanto se escreveu como ditado por entidades sobrenaturais, não passa de lendas e mistificações, que, embora bem intencionadas, já não são mais aceitáveis no século atual.

Não se acredita mais que Caronte continue levando as almas dos mortos, atravessando o rio Aqueronte, rumo ao Hades; no entanto se acredita que um ministro, seja de que religião for, rezando junto a um cadáver, possa ter qualquer influência sobre o destino da sua alma. Há de se considerar que, a alma ao deixar o corpo, já se apresentou, como se apregoa, para o julgamento divino, portanto, rezar sobre o seu corpo carnal, certamente, não mais influirá sobre o seu destino.

Não se acredita mais que uma Nereida proteja os mares, no entanto Iemanjá tem seu culto cada vez mais concorrido, mesmo em altas classes sociais.

O que chamamos hoje de “mitologia”, foram religiões da maior aceitação entre antigas civilizações. Júpiter, Zeus, Osíris eram considerados deuses da mesma maneira que Jeová o é hoje.

Dentro de poucos séculos, o catolicismo (não o cristianismo) será estudado nas escolas como a mitologia mais farta de deuses e divindades produzidas pela vontade humana dos Papas, que se dizem representantes do próprio Jesus.

O fundamental das religiões, seja cristã ou muçulmana, baseia-se no que foi atribuído aos profetas, e, principalmente no Decálogo, cuja autoria atribuem indevidamente a Moisés. Esses dez mandamentos básicos, fazem parte de todas as religiões e códigos, desde os habitantes das cavernas, às mais decantadas civilizações, antigas ou atuais.

Se Moisés teve que passar quarenta dias e noites numa montanha, faminto e sedento, sem qualquer tipo de higiene, só para receber das mãos da divindade um par de pedras, possivelmente com toneladas de peso, com leis já conhecidas desde que a humanidade passou da barbárie para a civilização, foi um sacrifício inútil.

Entre os aborígenes das planícies centro-africanas, ou entre os habitantes das frígidas regiões polares; entre os egípcios ou cananeus, encontraria quem lhe ditasse que era proibido matar, roubar, caluniar, tomar a mulher ou os bens do próximo, mentir, e centenas de outras prescrições mencionadas no Levítico, sem ter proporcionado o espetáculo do monte Sinai.

Tendo Moisés sido criado e educado principescamente no Egito, tinha pleno conhecimento dos códigos morais, e no Decálogo só os confirmou, ou melhor os transcreveu das legislações do Egito, ou de qualquer outro país com que sua pátria mantivesse relações culturais, para se fazer respeitar pela massa de escravos sob o seu comando.

Os católicos, espíritos escravizados a dogmas elaborados por fanáticos pseudo intérpretes da divindade, vêem pecado nos mais irrelevantes gestos de independência mental, e só se sentem aliviados aos desnudarem suas almas, prostrados humildemente ante um sacerdote oculto num cubículo, de onde, sem mostrar sua efígie, espiona e vasculha a intimidade e a privacidade dos seus penitentes, cometendo, então, às vezes, até pecados mais vergonhosos do que aqueles que lhe estão sendo confessados.

O pecado não existe se observarmos o que consta da Bíblia, onde diz que até um fio de cabelo está contado em cada cabeça, bem como o número de folhas de cada árvore.

Deus tudo sabe, tanto do presente, como do passado, e do futuro. Todos os seus atos seriam perfeitos, obra da sua eterna sabedoria. Não é admissível que um artista produza um trabalho, sabendo de antemão, que ele seria repudiado. Só um falso artista poderia fazer uma obra para agredir, mostrar sua agressividade, e certamente Deus não faria algo imperfeito, pois demonstraria ser também imperfeito e poria em dúvida a sua eterna sapiência.

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