"A Idade Média foi a época de ouro do catolicismo, período de profunda estagnação mental, ou antes, um fenômeno monstruoso de evolver regressivo da história da civilização. Tudo ficou imóvel no domínio da inteligência; triste e fria rigidez na concepção dos céus; imobilidade na astronomia e na visão dos poetas.
O doutorismo escolástico, de olho fixo no infinito, atua no ânimo das populações apavoradas pelas superstições e pelo fanatismo religioso, numa concepção pessimista da vida, a idéia fixa na morte, o pavor que incute nos espíritos a lenda de Satanás. A saúde, o prazer mais inocente, os desejos mais humanos, tudo isso é, para os místicos, uma causa de perdição, uma fonte de pecados de que o homem deve fugir.
O mais elevado ideal de perfeição está na absoluta ignorância do que se passa pelo mundo, está no êxtase, na inércia do pensamento e na aniquilação da vontade. O gozo espiritual só se obtém com a mortificação da carne, com as flagelações e com os jejuns prolongados." (A Questão Social e o Catolicismo, fls. 197/8).
A "Imitação de Cristo", obra publicada pelos monges em 1441, prega a absoluta ignorância para o povo que se transformaria num rebanho pacífico entregue à cupidez do clero.
Consta no capítulo 2, itens 1-3: "Todo homem tem desejo natural de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temor de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros, mas descuida de si mesmo. Renuncia ao desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma. E muito insensato é quem de outras coisas se ocupa senão das que tocam à sua salvação. Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado".
No capítulo 9: "Grande coisa é viver na obediência, sob a direção de um superior e não dispor da própria vontade. Muito mais seguro é obedecer do que mandar". No capítulo 56: "Assim como o não desejar coisa alguma exterior produz paz interior, assim o desprendimento interior de si mesmo causa a união com Deus". No capítulo 58: "Não queiras também inquirir ou disputar sobre o mérito dos santos, qual seja o mais santo ou o maior no reino dos céus. Alguns, por um zelo de predileção, se afeiçoam mais a este ou àquele santo, mas este afeto é mais humano que divino. Guarda-te, pois, filho, de discorrer curiosamente sobre coisas que excedem teu entendimento. Cuida antes e trata de seres ainda o ínfimo no reino de Deus".
Esses pensamentos, instilados insistentemente, desde o púlpito à solidão pavorosa dos confissionários, tanto à massa ignorante e miserável como à estúpida burguesia, eram o ópio causador da escravização voluntária que fez da Igreja um leviatã do poder temporal e escravocrata. Karl Marx disse: “A religião é o ópio do povo”.
Dos lúgubres mosteiros saiam as pregações de que o corpo era nada mais que uma vil matéria, invólucro desprezível da alma e que nem deveria ou poderia ser manipulado ou lavado, pois dele só surgiriam contatos pecaminosos. O ideal da vida se reflete na lividez dos cristos esqueléticos, em personagens de faces encaveiradas, de cabeleiras hirtas, tão bem reproduzidas em "Os aleijados" e "O Triunfo da Morte", de Pierre Bruegel.
Além dessa dramatização delirante, a morte teve o seu canto funerário em que a alma medieval, no desespero da vida e do mundo, aguarda, espavorida, desalentada, o dia fatal do aniquilamento da terra com as suas dores e tristezas; em que os mortos sairão das suas tumbas, para o juízo final; dia de grande terror, quando o Juiz supremo vier pedir as contas mais severas. Não é só o espectro da morte que traz espavorida a alma cristã da Idade Média; a cada instante estremece ela de susto, sentindo roçar-lhe, numa carícia, ou infundir-lhe no íntimo e subjugá-la, o espírito escarninho de Satanás. Esse Satanás, como Jehová, possui o dom da ubiqüidade: habita o fundo silencioso das águas e as florestas escuras; freqüenta os claustros e os bordéis; as tavernas e as sacristias; a cela tosca dos anacoretas e a corte suntuosa dos pontífices. O Diabo torna-se na imaginação popular e dos próprios teólogos, a personificação de todos os deuses do paganismo; é uno e é múltiplo. É o responsável por todas as calamidades e insucessos: uma tempestade que se desencadeia, um furacão que ruge, arrancando árvores e desmoronando torres; se o inverno é rigoroso e a geada cai; se os rios transbordam e inundam as herdades, tudo é obra do Diabo. A fome, a peste. Se um guerreiro cristão é mal sucedido numa batalha; se um padre, uma freira desfaz seus votos; se um bispo, um cardeal, um papa se deixa arrastar pelas seduções do mundo; se uma solteirona, devota e ricaça, morre sem haver legado os seus inúmeros bens a um mosteiro ou a uma Igreja, foi, por força, por intervenção do Diabo. De todas as formas o veste a crendice popular incentivada por um clero ateu: ora aparece sob a forma de um porco imundo, de uma serpente, de um morcego ou é uma horripilante criação híbrida em que se combinam seres humanos com patas e chifres de animais.
Para aquele povo crente, ignorante e fanático, o monge, sob sua aterrorizadora cógula tenebrosa, era um ser com poderes absolutos. Podia perdoar pecados e amaldiçoar. Podia livrar ou condenar ao fogo do inferno segundo o seu humor. Podia transformar uma bolacha de trigo ou um copázio de vinho na carne e no sangue de Cristo, isto é, de Deus. Tinha Deus em suas calejadas mãos; podia comê-lo ou dá-lo a comer a bocas desdentadas e escrofulosas. Sua palavra era inspirada; e, suas mãos, ao erguê-las fazia com que a massa de povo se prostrasse de joelhos em terra. Era como um deus, já que era um fazedor de Deus.
Raoul Glaber, um frade cronista do ano 1000, conta como teve em mais de uma ocasião oportunidade de ver o Diabo. Uma vez foi no mosteiro de Saint Lèger, à noite. Narra o cronista:
"Eu o vi ao pé do meu leito como um pequeno monstro de forma humana. Tinha, tanto quanto pude reconhecê-lo, o pescoço esguio, a face magra, os olhos muito pretos, a fronte estreita e enrugada, o nariz chato, a boca enorme, os lábios grossos, o rosto curto e fino, uma barba de bode, as orelhas retas e pontudas, os cabelos duros, os dentes de cão, o occiput saliente, o peito e as costas protuberantes, as vestes sórdidas; agitava-se, debatia-se furiosamente".
Essas aparições eram na sua época muito freqüentes, e por isso andavam sempre os monges em polvorosa. (E. Gebhart - Moines e papes, pag. 21 a 28).
A Idade Média surgiu da decadência do Império Romano e da ascensão do cristianismo aliando-se ao poder absoluto dos senhores feudais. Um breve retrospecto mostrará o que foi a idade do obscurantismo.
Nos anos 98 a 117 o Império Romano atingiu o seu apogeu sob o Imperador Trajano. No seu reinado houve uma sublevação dos judeus no Golfo Pérsico.
De 306 a 337 reina Constantino, filho de Constâncio Cloro com uma sua concubina de nome Helena, mais tarde canonizada como santa da Igreja Católica. Matou Maxêncio na batalha de Saxa Rubra (312) e fez-se imperador do ocidente enquanto Licínio ficou com o Oriente. Sendo assassinado Licínio por ordem de Constantino, este se faz senhor absoluto do Império Romano.
Em 313 Constantino converte-se e dá liberdade de culto aos cristãos.
Em 380 Teodósio I faz do Cristianismo religião oficial do Império, tornando-se um soberano fanático e intolerante contra todos que se opunham à nova religião. A Igreja já era tão poderosa, que o próprio Imperador, em desacordo com o Bispo Ambrósio, de Milão, foi por este “excomungado”, e humilhou-se publicamente perante o Bispo.
A partir dessa data o Cristianismo transformou-se em Catolicismo Romano; de perseguido, passou a perseguidor, e a humanidade ocidental passou a sofrer as mais tenebrosas perseguições, com milhares e milhares de mortos por questões religiosas, até que, após 1500 anos, anos de poder absoluto, Napoleão quebrou os dentes desse monstro (a Inquisição) que não morreu, mas perdeu todo o poder, estando recolhida nos subterrâneos do Vaticano, à espera de um sonho de readquirir suas presas e sua virulência.
Mesmo na atualidade, a Inquisição, do fundo do seu tugúrio, lança alguns raios rancorosos para demonstrar que ainda vive. Leonardo Boff foi calado pela Inquisição de Roma, e, no Brasil arrancou de um Presidente pusilânime um desacato à liberdade de pensamento ao proibir a exibição de um filme de cinema: “Je vous salue, Marie”.
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