O "Manual dos Inquisidores", obra editada no ano de l.376 pelo Frade Dominicano Nicolau Emerich, e reeditado pela "Editora Rosa dos Ventos", - Rio de Janeiro, foi uma espécie de Código Penal que veio institucionalizar os castigos que a Igreja vinha infligindo ao povo, ou melhor, sobre todos aqueles que não aceitavam suas prescrições e seus regulamentos, desde que o cristianismo foi substituído pelo Catolicismo Romano e, imposto como religião oficial do Império Romano pelo Imperador Teodósio.
Com o poder crescente, mais tarde chegando a ser o mais poderoso governo mundial, a Igreja Católica, através dos seus dirigentes, foi adquirindo a insensibilidade natural dos poderes absolutos, perdendo toda compostura inerente aos ditadores, passando a ver na humanidade um rebanho a ser expoliado, dirigido e mantido sob a mais ferrenha dominação.
A catequese praticada pelos Apóstolos, humildes pregadores, que não levavam duas vestes, nem pão, nem alforge, nem dinheiro, foi substituída por uma mentalidade assassina apoiada nas armas, no terror, nas torturas e nos seqüestros de bens daqueles que fossem julgados suspeitos de heresia, ou caísse no seu desagrado.
A Igreja, através da Inquisição, quando os seus altos dignitários só pensavam e viviam a preocupação da perseguição de "hereges", transformou-se numa terrível máquina de destruição de vidas, movida, não pela vontade de salvar almas, mas de queimar, trucidar corpos, vê-los estrebuchar sob as mais horríveis torturas sob os olhares fiscalizadores de verdugos, muitas vezes sob hábitos sacerdotais de diversas hierarquias.
O "herege" era considerado pela Igreja o mais perigoso dos humanos. Nem Hitler, Mussolini, ou qualquer ditador sanguinário da América Latina, ou africano, procedeu com tamanho ódio contra suas vítimas.
A Igreja torturava o corpo e a alma do "herege" infligindo-lhe tortura física e moral. "Todos os Domingos e Festas, entre a Epístola e o Evangelho, os condenados dirigir-se-ão descalços, vestidos unicamente com as roupas da penitência (saco), e com varas na mão, até o celebrante, que os chicoteará, perguntando-lhes, depois, que crimes estão expiando".
Trata-se de um velho castigo, tirado, provavelmente, do quarto grau de penitência de São João Clímaco.
A Igreja criou uma série progressiva de atos considerados heréticos, entre eles o chamado relapso. Os "hereges", solicitando ou não o perdão sacramental, serão entregues ao braço secular, sem nenhum tipo de processo. (FL.83) Quando o "herege" se retrata, fica livre da excomunhão, porém é condenado à prisão perpétua; caso sua retratação seja julgada ambígua, o que acontecia geralmente, é ele entregue ao braço secular para ser castigado até à morte (após as torturas de praxe) e queimado numa fogueira em praça pública, acompanhado de grande solenidade em que os assistentes recebiam indulgências.
Outro crime inafiançável é "quando se levanta a mão para um representante do clero”.
De acordo com as Leis Inquisitoriais, todo mundo deve expulsar de casa o irmão, o pai ou o cônjuge julgado "herege". O filho que não denunciar o próprio pai, dando-lhe guarida em sua casa, ou a mesma coisa, em relação ao marido e mulher etc., todos serão punidos com um pouco menos de rigor. (Fl. 81).
Quem não denunciar os que guardam em casa livros proibidos (pelo Index Librorum Prohibitorum); os bígamos ou os padres que, durante a confissão, induzem os fieis a cometerem o pecado da carne e outros pecados, devem ser considerados "fortemente suspeitos", recebendo castigos de prisão, que poderá ser de muitos anos ou mesmo a prisão perpétua. (Fl. 81).
Denunciar um confessor de atentado imoral durante a confissão, é difícil de ser comprovado, ficando o denunciante sujeito à tortura e prisão, a não ser no caso de flagrante de estupro assistido por testemunhas idôneas, caso estas não tenham medo da fogueira, pois se for instalado processo, certamente serão consideradas caluniadoras e sacrílegas, por atentarem contra um membro da Igreja.
Os denunciados de "feitiçaria", de terem juntado hóstias consagradas aos seus filtros ou terem prendido demônios em garrafas, são considerados fortemente suspeitos e seus castigos terminam, sempre na fogueira. Santo Agostinho diz sobre essas práticas: "Não prenderás o demônio num anel, num espelho, numa garrafa, nem em lugar nenhum para arrancar-lhe uma resposta ao teu agrado" (Fl. 57).
Se Santo Agostinho, um dos maiores lumináres da Igreja Católica, acreditava nessas sandices, não é de admirar que o clero, quase sempre composto de homens incultos, nomeados por política religiosa, fizesse da religião um amontoado de irregularidades criminosas.
Quando o suspeito de heresia se acha incapacitado de responder claramente às perguntas dos Inquisidores, "será trancafiado durante seis meses ou um ano, numa prisão horrível e escura, pois o flagelo da cadeia e as humilhações constantes costumam acordar a inteligência) (Fl. 173).
Para justificar esses procedimentos criminosos, há o seguinte comentário: "É claro que ensinar e amedrontar o povo com a proclamação das sentenças, a imposição de sanbenitos é uma boa ação. Nada mais glorioso para a Santa Fé do que humilhar publicamente a heresia.
A Igreja, e sua "obra prima", que foi a Santa Inquisição (?), era diametralmente contra qualquer espécie de cultura para o povo. Para amedrontá-lo e fazer com que se mantivesse inculto, diziam-lhe: "Quanto mais souberes, mais rigorosamente serás julgado". O inferno, o purgatório e outras penalidades após à morte eram a constante através dos púlpitos e confissionários para manter a população apavorada sob essa terrível espada de Dâmocles.
A cultura era vista sob suspeição, e não se pouparam os sábios e eruditos aos sacrifícios nas fogueiras, acusados que eram de hereges. Vejamos alguns exemplos, entre as centenas de milhares de vítimas assassinadas pelo ódio da Igreja Católica e seus Bispos:
Hipácia, (anos 370-415) - filósofa e matemática grega, célebre por sua beleza e cultura. Por haver fundado, em Alexandria uma academia onde se ensinava Platão e Aristóteles, foi julgada herege pelo Bispo Cirilo, mais tarde santo da Igreja, que incitou o povo para linchá-la. Na ocasião é queimada a Biblioteca de Alexandria, na época, sob a direção de Hipácia, sob o pretexto de possuir obras heréticas.
João Huss, reformador religioso e herói nacional tcheco. Sacerdote e Reitor da Universidade de Praga. Excomungado e queimado pelo Papa Alexandre V, que desrespeitou um salvo-conduto do Imperador Segismundo, quando ia fazer sua auto-defesa da acusação de herege de que era acusado pelo sanguinário Inquisidor João Capistrano, mais tarde feito santo pela Igreja.
Giordano Bruno, (1548 - 1600) filósofo italiano, foi das mais vivas inteligências do Renascimento. Deixou obras obre filosofia, teologia, e outras, condenadas pela Igreja que não aceitava qualquer idéia fora dos arcáicos conceitos bíblicos.
Foi professor nas maiores Universidades da época; Inglaterra, Alemanha, Paris, Milão e outras. Foi traido por um amigo, católico fanático, que o convidou para vir de Nápoles para Roma, onde o denunciou à Santa Inquisição Católica.
Por defender a teoria de que a terra não era o centro do Universo, como pregava a Igreja, e que deveria existir outros mundos habitados, foi acusado de heresia e queimado na fogueira, em Roma, pelo Papa Clemente VIII, no ano de 1600.
Para que não pudesse mais falar, a Inquisição amordaçou-o com chapa de ferro que lhe quebrou os dentes e dilacerou a língua, caminhando para a fogueira com seu sangue ensopando o sambenito. (Saco de baeta ordinária que vestia os condenados da Igreja). A sua execução foi assistida festivamente pelos mais altos dignitários da Igreja Católica Romana.
Joana d'Arc, queimada em 143l com autorização do Papa Martinho V, como herege, porque dizia ouvir vozes de Santa Catarina. Heroína francesa da Guerra dos Cem Anos, camponesa da aldeia de Domremy, na Lorena. Foi reabilitada pela Igreja e canonizada como santa em 1920.
Estevão Dolet, erudito francês, queimado em Paris, como herege, a mando do Papa Paulo III.
Pedro Abelardo, teólogo, professor e filósofo francês. Tendo um respeitável currículo como sábio, o Papa Inocêncio II para queimá-lo na fogueira, convocou um Concílio em Soissons.
Antônio José, dramaturgo brasileiro; foi garroteado e queimado pela Inquisição, em Portugal. Sua mãe foi torturada em sua presença para lhe infligir maior tormento, com autorização do Papa Clemente XII.
Girolamo Savonarola, padre dominicano, líder religioso e reformador. Excomungado pelo Papa Alexandre VI, foi torturado e queimado em Florença.
Jacques de Molay, último Grão Mestre da poderosíssima Ordem dos Cavaleiros Templários, possuidora de inúmeros castelos pela Europa, frotas de navios, bancos e milhares de outras propriedades extorquidas desde o tempo das Cruzadas. Dezenas de Cavaleiros Templários foram queimados juntamente com seu Grão Mestre por ordem do Papa Clemente V a pedido de Felipe IV, Rei da França, pois ambos ambicionavam as riquezas da Ordem.
Luis de Berquin, pregava a liberdade de consciência. Queimado na Praça da Greve, em Paris, em l7/4/1529, por ordem do Papa Clemente VII.
William Tyndalle, teólogo que traduziu a bíblia para o inglês, quando sua leitura era expressamente proibida para o povo. Perseguido pela Inquisição, fugiu para a Bélgica, porém, foi preso em Antuérpia, estrangulado e queimado por ordem do Papa Paulo III.
Michel Servet, biólogo e teólogo espanhol. Por descobrir a circulação pulmonar, foi sua obra julgada herética. Foi queimado pelos protestantes, em Genebra, para agradarem ao Papa Júlio III.
John Wycliff, reformador religioso que traduziu para o inglês a "Vulgata". Foi preso e ameaçado de ser queimado pela Inquisição, tendo que se retratar das suas desavenças com o papado. Seus ossos foram desenterrados e queimados solenemente pela Igreja Católica.
Jean Calas, apesar de ser protestante francês, foi torturado e queimado por ordem do Papa Clemente XIII, por ter sido denunciado de haver assassinado seu filho católico. As denúncias à Inquisição podiam ser anônimas, porém os acusados eram irremediavelmente dados como hereges. O fato foi tão vergonhoso para a Igreja, que Voltaire escreveu a propósito, a obra: "Tratado da Intolerância".
Galileu Galilei, uma das maiores inteligências humanas, foi condenado a ser queimado vivo por ensinar que a Terra girava em torno do Sol, quando a Igreja dizia o contrário. Escapou da fogueira após abjurar das suas idéias e declarar que a Terra era o centro do Universo, e que o Sol e as Estrelas giravam ao seu redor. Assim salvou sua vida e passou a concordar com a sabedoria dos Papas, Bispos e Cardeais.
Nicolau Copérnico, astrônomo polonês que, por questões de astronomia, teve suas idéias julgadas heréticas pela Inquisição. Ameaçado de ser queimado pelo Papa Paulo III se publicasse suas obras, retraiu-se, fugindo assim, ao ódio da Igreja pelos cientistas.
Lucílio Vanini, filósofo italiano que, por se dedicar à astronomia, foi acusado de adepto da astrologia e da magia. Foi queimado em Toulouse por ordem do Papa Paulo V.
Antônio Palearius, professor de eloquência, em Milão. Perseguido pela Inquisição, foi preso, torturado e queimado por ordem do Papa Pio V.
João de Leyde, chefe dos "anabatistas", foi supliciado e queimado na Alemanha em 2 de janeiro de l536, perseguido tanto por católicos, como por luteranos.
Urbain Grandier, cura de Loundun, executado por erotizar freiras de um convento, julgado assim como herege.
Arnaldo de Bréscia, reformador político e religioso italiano. Levantou Roma contra o poder aterrador dos Papas, sendo porém, preso pelo Imperador Frederico Barba-Roxa e entregue à Igreja. Foi estrangulado, sendo o seu cadáver queimado por ordem do Papa Adriano IV.
Jerônimo de Praga, queimado vivo em Constança, no ano de 1416, como herege, por proclamar que as indulgências não passavam de chantagens contra o povo apavorado e ignorante.
Ceneschi, protonotário eclesiástico, cargo da maior confiança no Vaticano, foi queimado na fogueira por ordem do Papa Pio V.
Tommaso Campanella, era monge dominicano, filósofo e poeta. Foi perseguido pela Inquisição ( da qual os mais fanáticos e sanguinários eram justamente os dominicanos) por suas idéias igualitárias. Em sua obra "A Cidade do Sol", descreveu uma cidade comunitária, tipo de um comunismo idealista, em que tudo pertencia a todos, inclusive as mulheres. Em outra obra "Ateísmo Vencido" continuou desagradando a Inquisição. Apesar de cristão e frade, foi barbaramente supliciado como ele mesmo conta: "Fui encerrado em 50 prisões e sete vezes submetido à tortura mais atroz. A última vez a tortura prolongou-se por quarenta horas, com os carrascos se revezando. Garroteado com cordas muito retezadas e que me dilaceravam os ossos, suspenso com as mãos para traz em cima de uma ponta aguda de madeira, que me devorou a l6ª parte da minha carne e me tirou 10 libras de sangue; curado após 6 meses de doença, fui atirado a um fosso. Quinze vezes tive que ser julgado. Da primeira vez me perguntaram: "Como sabes o que não aprendeste? Tens algum demônio às tuas ordens?"
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