A Igreja Católica Romana e a Bíblia

A Bíblia adotada pela Igreja Romana foi dividida em quarenta e cinco Livros para o Antigo Testamento e vinte e sete para o Novo. Destes Livros, que foram confirmados pelos diversos concílios: Hiponense, Florentino, Tridentino e Vaticano, a Igreja extrai parte da sua doutrina dogmática e moral, como sejam: as verdades em que se deve crer e as instruções para a conduta dos crentes, desde que não entrem em desacordo com seus cânones.

“Redigidos por escritores muito diferentes, esses livros são, por seu conteúdo, por seu estilo e composição, de uma grande diversidade. Alguns são de fácil leitura, outros escapam, sem explicações ou notas, à compreensão do "grande público".

A Bíblia não é um livro de uma época. Certas partes foram escritas no tempo de Moisés, XIII séc. AC; outras, as últimas, no fim do 1° século da nossa era: os Evangelhos e o Apocalipse, este atribuído ao apóstolo João.

Com o tempo, certos ritos e certas preces se modificaram, porque a liturgia evoluiu. Mas nessa evolução a Igreja não pôde trair ou deformar a palavra de Deus, porque ela não consegue, a esse respeito, senão uma fonte: a Bíblia, que é o repositório sagrado, escoimado, porém, das interpretações que não lhe interessavam na formação da nova religião e do que poderia conflitar com o rigor das tradições judaicas.

Partes importantes do Antigo Testamento foram revogadas pela Igreja, principalmente no que toca a adoração de ídolos, hoje a parte mais relevante do Catolicismo Romano, e a mais auspiciadora fonte de recursos materiais.

“Afirmar que a Bíblia tem Deus por autor”, não quer dizer que os profetas, os evangelistas e o salmista não escreveram seus livros e que eles não lhes imprimiram seu cunho próprio, seu estilo e seu temperamento, bem como suas próprias interpretações, ou fantasias”, dizem.

“Mas eles escreveram sob a inspiração divina, e foram apenas intermediários, os instrumentos da transcrição do Pensamento e da Palavra de Deus”, assim querem impor, também.

“Deus fala pelas escrituras”, dizia Ambrósio, santo proeminente dos católicos.

“Cada palavra da Sagrada Escritura, é como uma trombeta que faz ressoar nas orelhas do crente a grande voz de Deus”, disse Jerônimo, também santo da Igreja.

“Do Gênesis aos Evangelhos, a Bíblia celebra Cristo”, dizem os cristãos. “Será errado supor que o Antigo Testamento não é uma obra cristã. Numerosas páginas ali celebram, às vezes com a emoção da espera, a vinda do Cristo”, embora, a rigor, nada ali existe que claramente possa se referir a Jesus. ( Bíblia Livros do Brasil S/A).

Para atualização da divisão da Bíblia, foi convocado o Concílio de Trento, pelo Papa Paulo III, para o ano de 1537. As seções preparatórias foram tumultuadas e o Concílio foi transferido para 1538, em Vicenza. Ainda não se conseguiu chegar a um acordo, e foi novamente transferido para 1541. Ainda sem sucesso. Somente em 13 de dezembro de 1545, foi possível a sua realização, vencidas as resistências dos seus membros.

Certas seitas bíblicas procuram aceitar seus ensinamentos e seguir seus preceitos, no entanto, interpretando-a à sua maneira, distorcendo o seu sentido, fazendo desse cumprimento uma miscelânea que poderia ser classificada de herética pelas demais.

Cada seita cristã argumenta que as demais são falsas, numa troca de diatribes que, para um observador independente, seu julgamento será de que todas, verdadeiramente, são falsas.

A posse da Bíblia, ou a sua leitura, até época recente, era proibida para os católicos. Suas traduções para diversos idiomas sofreram alterações apreciáveis. Do hebraico, ou do aramáico para o grego, ou deste para o latim, o tradutor encontraria sérias dificuldades em razão de alguns termos ou expressões, inerentes a uma língua, serem quase intraduzíveis para outra.

Ptolomeu II, desejando que a Biblioteca de Alexandria fosse completa em seu acervo, convocou, de cada uma das tribos de Israel, seis sábios teólogos, para que reunissem o maior número possível de escritos bíblicos, antigos e recentes, e os traduzissem para o grego. Só por volta de 130 A.C. o trabalho foi dado por completo, e essa versão passou a ser denominada de "Septuaginta".

Os primeiros sacerdotes do cristianismo não eram versados em grego, e faziam suas pregações com poucas referências a certas partes do Antigo Testamento, já que as traduções latinas eram raras, escritas em pergaminho, de dificílima aquisição e, às vezes com interpretações difíceis para suas poucas instruções.

Com a implantação do cristianismo como religião oficial do Império Romano, por Teodósio I, o Papa da época, Dâmaso, confiou a tradução das Escrituras, do grego para o latim, ao teólogo Sophronius Euzebius Hieronimos, ( o São Jerônimo da Igreja) pois havia necessidade urgente da sua tradução para difusão entre os povos bárbaros, quando das conquistas dos exércitos romanos, agora, sempre acompanhados de sacerdotes que faziam suas catequeses apoiadas nas espadas e nas lanças romanas. Esse apoio militar na implantação do cristianismo foi tão eficiente que, séculos depois, adotado pela Inquisição, foi apoiado por reis e imperadores, levando o cristianismo a todo o mundo ocidental, dominado, agora, por um atavismo histórico.

Nas regiões onde os exércitos romanos não atuaram, o cristianismo é quase inexistente, e, para bem desses povos que não sofreram os horrores da Inquisição e das espoliações da Igreja Católica.

A difusão do cristianismo, foi portanto, um acontecimento geográfico. Onde houve a influência das conquistas de Roma, ele se implantou, a ferro e fogo. Aqueles que nasceram nessas paragens não tinham outra alternativa, senão serem cristãos. Os que nasceram onde não houve influência de Roma, desconhecem quase que completamente o cristianismo, Jesus e a Bíblia judaica, tendo outras filosofias religiosas.

O manuseio da Bíblia, e sua leitura não era de fácil compreensão para um clero católico em expansão, quando seus padres e frades eram, geralmente, iletrados, escolhidos quase sempre por influências políticas ou paternalistas, tanto pela Igreja, quanto pelos Barões e Imperadores.

Para facilitar sua compreensão, seu conteúdo foi ordenado em "capítulos" e "versículos" no ano 1.214 pelo Arcebispo Estevão Langton, no entanto, a numeração dos seus livros permanece diferente entre judeus e cristãos. (Enciclop.Tudo, fl.773).

A Igreja Católica tinha absoluta exclusividade para a tradução, divulgação e impressão da Bíblia, sendo a sua posse proibida tão rigorosamente que, centenas de pessoas foram queimadas nas fogueiras da Inquisição, como hereges, pelo simples fato de a possuírem, ou mesmo de a terem lido.

Por haver traduzido a Bíblia para o inglês, Wylliam Tyndale, em l536, foi preso, torturado, julgado como herege e queimado numa fogueira pela Inquisição da Igreja Católica, com a aprovação de Sua Santidade (!), o Papa Paulo III.

Com a vulgarização da Bíblia, surgiram as contestações inevitáveis. A parte mais culta da sociedade, literatos, historiadores, juristas e outros estudiosos, passaram a ver que aquela "palavra de Deus" não passava de literatura sobre a história de um povo, eivada de contos sobre guerras, crimes, mentiras, adultérios e roubos, praticados justamente pelos seus mais proeminentes patriarcas, história que, aliás, nunca teve atuação relevante no concerto das demais nações.

Muitas seitas não concordam com determinados livros, achando-os, portanto, como não sendo ditados por Deus. Aí surgem as dissenções para se saber a qual facção Deus dá o seu apoio. Dessa inglória discussão, aproveitam-se os agnósticos para provarem que as religiões são feitas para exploração e espoliação do povo, nada tendo a ver com quaisquer divindades, muito menos com o desejo de salvar almas.

Entre os livros não aceitos por apreciável parte das subdivisões do cristianismo estão: Judite, Tobias, I e II Macabeus, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico. Porque estes não foram tidos como ditados pelo Deus dos cristãos? Teriam sido ditados por Deus: Ruth, Esther, Isaias, Miquéias, ou Malaquias?

De onde vem essa convicção que separa os cristãos fazendo com que se odeiem satiricamente, se entredevorando em sangrentas lutas, tais como acontecem atualmente na Irlanda ou já aconteceram na Noite de São Bartolomeu, quando milhares de “protestantes” foram trucidados traiçoeiramente pelo conluio da Rainha Catarina de Médices com o Papa da época?

Na Bíblia de Jerusalém, fl. 26, consta o seguinte comentário sobre os cinco primeiros livros do Antigo Testamento: "Eles foram revisados, receberam complementos, foram enfim combinados entre si para formarem o Pentateuco que conhecemos".

Se a Bíblia foi ditada por Deus, teria ele sido prolixo ou incompetente, para ter sua redação corrigida e modificada por suas criaturas?

Os "Racionalistas" afirmam que: "É muito mais fácil crer que as profecias foram escritas depois do seu cumprimento, do que aceitá-las como genuínas. Preferem invalidar os relatos bíblicos dos milagres, por classificá-los de mitos, lendas, ou folclore, a considerar a possibilidade de que realmente aconteceram". (A Bíblia - Palavra de Deus ou dos homens- fl. 43).

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