Hiperdulia

As religiões são como as fortalezas: construídas para a eternidade, mas, envelhecem e caem em ruínas, e, dos seus escombros, com suas pedras, constroem-se novas que, por sua vez, envelhecerão e serão substituídas por outras.

O homem as vai moldando de acordo com as mentalidades da época, "ostracismando" as que se tornam superadas pelo desenvolvimento da cultura.

Do animismo primitivo que fez o homem das cavernas ver nos fenômenos naturais, para ele incompreensíveis, manifestações de seres sobrenaturais, evoluiu para o fetichismo, quando indivíduos mais esclarecidos, aproveitando-se do medo e da ignorância dos seus semelhantes, fizeram-se sacerdotes, médicos ou feiticeiros.

Nesse estágio teve início a construção de amuletos, imagens toscas e tabús.

Com o correr dos séculos, os povos evoluíram mentalmente, porém, sem explicações para o desconhecido, conservaram as religiões para interpretar o inexplicável. O raciocínio religioso, acompanhante eterno da humanidade, pouco ou nada evoluiu: se o homem da caverna representava os poderes desconhecidos, erigindo-lhes toscas imagens, ante às quais se curvava, o homem moderno apela para refinadas estatuárias de divindades humanas ante às quais se prostra implorando os seus poderes, em socorro às suas aflições.

Com a evolução da arte, o conceito de beleza foi se desenvolvendo e as imagens das suas divindades foram tomando formas agradáveis à vista. Dos inúmeros e toscos totens evoluíram para as carrancas diabólicas, e destas, para a representação física da divindade, nunca em sua forma real, pois as deformações físicas e traços julgados menos belos nunca são transportados para o mármore. As divindades esculpidas têm, sempre, semblante palaciano. A mãe de Jesus é sempre apresentada jovem, com maravilhosas vestes de ricos brocados de ouro e, sempre com uma coroa cravejada de pedras preciosas. Quem se atreveria a apresentar Maria, como uma simples, pobre e velha judia, com seus trajes da época?

Para atrair o mundo feminino, fizeram-se as estátuas de Apolo, Adonis, Marte e dos demais deuses habitantes do Olimpo. Para os homens criaram Vênus, a deusa da beleza, Diana e as outras deusas que, se não atraiam pelo culto espiritual, faziam-no pela atração das suas voluptuosas formas, reproduzidas em maravilhosas estátuas de mármore.

A Igreja Romana chama a tudo isso de paganismo, no entanto, na Catedral de Notre Dame, em Paris, uma enorme rosácea emoldura Maria num símbolo pagão do Zodíaco da antiga Babilônia. Na Catedral de Auxerre o escultor misturou heróis pagãos aos símbolos da Igreja: um Eros nu e dormindo, um Hércules e um Sátiro.

Na entrada da Basílica de São Pedro aparece, não só a figura de Cristo, como a da Virgem e também a de Ganimedes, levado pela águia para se tornar copeiro de Zeus; e de Leda, que, fecundada por Zeus, metamorfoseado em cisne, dera à luz Castor e Pólux. Na Capela Sixtina vê-se um Cristo nu emitindo relâmpagos como o trovejante Júpiter.

O símbolo de Maria vincula o cristianismo diretamente com as religiões antigas das "deusas-mães". A veneração da "Mãe de Deus" ganhou ímpeto ao ser o cristianismo oficializado por Teodósio, quando imensas massas pagãs e bárbaras foram trazidas para a Igreja pela convicção das armas imperiais.

A piedade e a consciência religiosa das pessoas tinham sido formadas durante milênios através do culto da "grande mãe" deusa, e da "virgem divina", algo que remonta às antigas religiões da Suméria, Babilônia e Assíria.

A Igreja Romana adotou esse culto, da "deusa-mãe" e "da mãe-virgem" para acolher em seu seio as massas pagãs que afluíam aos milhares vindas de todo o vasto Império Romano. Seria bem mais fácil aceitar os bárbaros com suas deusas, convencendo-os de que eram as mesmas da Igreja Católica, só que com outros nomes.

Fato idêntico ocorreu com a festividade do Natal, em que o Papa Silvestre, em 330, de acordo com Constantino, aproveitou a grande festa romana do "solis invicti" transformando-a no festejo do nascimento de Jesus, chamado pelos cristãos de "Luz do Mundo" e "Sol da Justiça". Com o correr dos anos a data se consolidou e Jesus passou a ter uma dia para ser festejado seu nascimento.

A veneração de Maria ganhou ímpeto com o primeiro Concílio de Nicéia em 325, quando, transformando Jesus em Deus, parte de uma recém-criada deidade trinitária, era mister dar à sua mãe, que transportou um Deus no ventre, um lugar de destaque no panteão que se iniciava.

Certamente surgiram contestações a esse herético pensamento e parte considerável da Igreja, que não via em Jesus senão um homem e em sua mãe sua simples genitora, levou a Igreja, 106 anos depois de Nicéia, a convocar novo Concílio, em 431, desta vez em Éfeso: As criações de Nicéia foram confirmadas como dogmas.

A partir de então nada empanaria dentro da Igreja a existência de Jesus como Deus e sua mãe como "Mater Dei". Todas as contestações eram consideradas heresias e não foram poucas, quando o cristianismo, já sob o título de catolicismo, enveredou para a matança, tortura e excomunhão dos contestadores.

Ninguem poderia expor o seu raciocínio herético ao pensar que, sendo Maria mãe de Deus, o que seriam os pais de Maria: avós de Deus? Os irmãos de Maria: tios de Deus? Quem nasceu primeiro, a mãe Maria, ou o filho Deus?

Cismas surgiam ininterruptamente. Já no século I os ebionitas negavam a divindade de Jesus, assim como os carpocráticos no século II. Em Éfeso foram condenados os nestorianos, enquanto o donatismo era pregado em Cartago.

Para combater esses numerosos cismas que negavam divindade a Jesus e a Maria, foi convocado, por Justiniano, o Concílio de Constantinopla em 553. Havendo relutância por parte do papa Vergílio, Justiniano leva-o cativo para sua capital, forçando a realização do Concílio que, além de condenar as chamadas heresias, declara Maria como "Virgem Eterna".

Com o correr dos anos a doutrina de Jesus, sempre se modificando, foi se transformando em doutrina dos papas. A Igreja transformou-se na maior força política que dominou o mundo ocidental. Os cenáculos humildes se transmudaram em templos suntuosos onde “ bezerros” de ouro recebem nomes de santos e santas, de santidades duvidosas.

Helena, ex-bailarina, concubina de Constâncio, foi levada aos altares como santa. Irene, mãe e assassina de Constantino VI, a quem mandou arrancar os olhos para lhe tomar o trono, é outra santa católica. D. Juan, o famoso conquistador, desordeiro, espadachim, violador de donzelas, destruidor de lares, o mais famoso bandido-amoroso, está com processo de canonização pelo atual Papa, João Paulo II.

Transformada em mãe de Deus em Nicéia, Virgem Eterna em Constantinopla, Maria estaria sujeita ao pecado original como toda a humanidade.

Não é possível que um Deus tenha nascido de um ventre contaminado pela culpa de Eva.

Em 1854 a Igreja engendrou um meio de fazer com que o nascimento de Jesus tenha procedido de um útero imaculado. O Papa Pio XI, em Roma, reúne a alta cúpula do Vaticano e decreta: "o útero de onde o Deus-Jesus nasceu não é como os das demais mulheres, manchado pelo pecado original, é um útero divinizado”.(Em outros termos).

Maria, por esse decreto infalível, nasceu sem a mácula da desobediência do Éden, portanto, seu filho Deus foi gerado em um ventre privilegiado, não atingido pela maldição de Jehová, que, em Gênesis, 3:16, se esqueceu de preservar a mulher que, mais tarde seria a mãe do seu parceiro na Trindade Santa, em conseqüência, sua própria mãe. Maria tinha agora uma situação privilegiada no cristianismo: Mãe de Deus, Virgem Eterna e "sine labe concepta".

Quando os Concílios decretaram que Maria foi virgem antes e depois do nascimento de Jesus, criaram um novo e incompreensível mistério, como só a Igreja sabe engendrar.

Jesus não teria nascido de parto, já que este se processa pela saida de um ser de dentro de um útero, através da vagina e da ruptura de um hímen, mesmo que esse fosse complacente e não tivesse sido rompido no ato que provocou a fecundação, quando se uniram o espermatozóide com o óvulo. Nessa fecundação o espermatozóide transmite através dos seus cromossomos as caracterísicas do ser a se formar.

Somente um espermatozóide e um óvulo humanos podem gerar outro ser humano. Espécies diferentes, quando se combinam, geram híbridos. Jesus seria então um híbrido e não se sabe por quais vias veio à luz, já que sua mãe continuou sendo “ mater castissima e mater inviolata”.

Maria passando a ser mãe de Deus, seus pais, Joaquim e Ana, surpreendentemente se trsnasformaram em avós de Deus. Sendo Pai, Filho e Espírito Santo um único Deus, sem serem tres deuses, Maria passou a ter precedida sua existência à do próprio Deus.

Discordando dessa série de mistérios absurdos, grandes vultos da Igreja fizeram surgir cismas que só não abalaram os alicerces da Igreja por falta de meios de comunicação e pelo medo das excomunhões.

Esse foi um dos grandes mistérios descobertos pelos Papas, tão, ou talvez mais do a descoberta da Trindade

Entretanto, mesmo como Mãe de Deus, sem ser deusa, o seu corpo deveria passar pelas fases impostas pela natureza: nascimento, vida e morte. A morte, importando na interrupção da vida, traz suas conseqüências fatais: decomposição, putrefação e destruição pela terra: "pulvis est, et in pulverem reverteris", disse o próprio Deus a Adão! Seria uma profanação a terra destruir um corpo humano que dera nascimento a um Deus. No Egito esse corpo seria embalsamado e sua múmia poderia resistir por alguns séculos, chegando, porém, o momento em que se esfacelaria em pó.

A solução foi encontrada séculos depois, em nossos dias, no ano de 1950, inspirada pelo espírito que assiste aos Papas em suas dogmatizações. Pio XII reúne seus cardeais e bispos e lhes diz, com o poder da sua infalibilidade: “ Maria não morreu! Ainda em vida, foi elevada ao céu em corpo e alma!”

Ante o assombro geral, apresenta sua Encíclica "Munificentissimus Deus", ante a qual todos se curvam. A partir desse instante ficou dogmaticamente estabelecida a Assunção de Maria, como Mãe de Deus, e sua Ascenção, em corpo e alma, para os espaços siderais, quando a própria ascenção de Jesus ainda não está definitivamente comprovada nos relatos pouco esclarecedores nos Evangelhos atribuídos a Marcos e Lucas. Mateus e João, que foram companheiros de Jesus, nada disseram sobre essa ascenção...

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