Partenolatria - O culto à virgindade

O culto da virgindade é inerente a todas as religiões e sempre se reveste de muita ternura, porquanto se aplica a entes estreitamente ligados à divindade, ou dela fazendo parte, direta ou indiretamente.

Ignace de la Potterie, padre jesuíta, diz que a virgindade em diversas religiões antigas tinha valor sacerdotal. Para os católicos, porém, o assunto é extremamente delicado e qualquer discussão sobre o dogma que atribuiu à Maria uma virgindade perene provoca reações violentas, por se apoiarem exclusivamente na fé imposta, deixando sem análises as provas em contrário constantes dos mesmos Evangelhos. Como o avestruz que esconde a sua cabeça para se livrar de um perigo que não quer ver, os católicos afirmam, mas não analisam; impõem, mas não dialogam.

Tem-se que aceitar o que desejam impor, mesmo não constando explicitamente nos Evangelhos, não sendo razoável qualquer discussão sobre o que ali está registrado literal e taxativamente. Querem impingir um raciocínio faccioso, que só seria aceito, como somente o foi, na Idade Média, quando a mínima cultura era negada ao povo e era restrita aos sacerdotes.

As Escrituras primitivas eram em siríaco e aramaico, precariamente acessíveis a alguns poucos sacerdotes. Mais tarde em grego e latim, reservadas a uma pequena parcela da humanidade confinada nos claustros, de onde partiam as interpretações manipuladas para conhecimento do povo. A cultura era desaconselhada, ou mesmo, proibida fora do meio clerical, não só pela força, mas pelo freio espiritual. A Imitação de Cristo, cap. 2, vers. 3, diz: "Quanto mais e melhor souberes, tanto mais rigorosamente serás julgado". Com o declínio do Império Romano, o latim, sob a influência dos bárbaros, se vulgarizou em dialetos irreconhecíveis, mantendo-se puro exclusivamente no meio sacerdotal, literário e científico. Reis e potentados mantinham ao seu lado legiões de frades confessores, tradutores, escribas e conselheiros, que faziam deles verdadeiros fanáticos.

Com a vulgarização da Bíblia, traduzida em várias línguas, os tabús foram se desvanecendo, chegando ao ponto em que está hoje, ser considerada como um emaranhado de lendas anacrônicas que facultam o surgimento de milhares de seitas esdrúxulas. Ela é um tesouro para o povo judeu exclusivamente, pois registra sua história e suas crenças através dos séculos. Na sua parte histórica é um monumento de conhecimentos interessantes para os historiadores e arqueólogos, porém, na sua parte religiosa, registra os anseios do povo sofredor que vivia à espera de um socorro providencial que os livrasse das perseguições que o assolavam através dos séculos, pois, não tendo um território para se fixar, mantinha-se unido pela crença e por uma auto-defesa contra as espoliações sofridas de povos mais fortes.

A decadência da religião, ou melhor, do catolicismo, se iniciou a partir da queda da Inquisição. Não mais temendo as fogueiras ou os verdugos de sotaina, o pensamento humano desprendeu-se das correntes escravizadoras e pôde voar livre, usufruindo a vida cultural em toda a sua plenitude, quando as situações econômicas o permitiam.

As civilizações antigas registraram o culto das deusas-mães: Demeter ou Ceres com o seu majestoso templo em Eleusis; Cibele, a grande mãe dos deuses, divindade suprema na Frígia, estendeu o seu culto à Grécia e à Roma, comprovando a excelsitude da sua divindade; Artemis ou Diana teve o seu majestoso templo em Éfeso, uma das sete maravilhas da antigüidade.

Os heróis mitológicos sempre tiveram nascimentos excepcionais através de virgens seduzidas por deuses.

Minerva ou Palas nasceu dentro da cabeça de Zeus, de onde saiu armada de lança, elmo e escudo. Zeus, tomando a forma de um touro, raptou a virgem Europa, levando-a para Creta, onde nasceu o seu filho Minos. Tomando a forma de um cisne, Zeus rapta Leda, mulher de Tíndaro e lhes nascem Castor e Polux, gêmeos, embora o primeiro fosse fecundado por Tíndaro e o segundo, nascendo de um ovo, fecundado pelo Deus.

Zeus, para possuir a virgem Io, transforma-a em novilha. A rainha egípcia Mutanait, há cerca de cinco mil anos, teve um sonho com o Deus Amon, o qual, juntando-se a ela, fê-la conceber um filho que seria rei de Tebas: Amenofis III, avô de Tut-anc-Amon.

Na Índia, lê-se no Vriat-Catha: - "Então Mahadeva, apareceu ao pai do futuro Salvador do mundo, e o informou de que sua mulher haveria de conceber, e que o fruto das suas entranhas seria uma encarnação divina e que o seu nome seria Vicrama. Quando nascido, todos foram adorá-lo. O sumo sacerdote, que não tinha filho, teve um nessa ocasião”.

A estória narrada por Mateus e Lucas parece um arremedo dessa narrativa, ou mesmo um plágio: - "Um anjo aparece a José e diz que o filho gerado em sua esposa o foi por um espírito divino (Mat. 1:18) e que seria chamado filho do Altíssimo e que receberia de Deus o trono de David (?) (Luc. 1:32) e o seu nome seria Jesus (Mat. 1:21). Uns magos vieram adorá-lo (Mat. 2:1 e 11) e um sacerdote que não tinha filho, teve um de sua senecta esposa (Luc. 1:57).

Cumpre observar que a estória de Vicrama é alguns séculos anterior à do nascimento de Jesus!

No Raja-tarangidi lê-se que o rei Arrya, depois da ascenção ao trono de Vicramadytia, seria infeliz, perseguido, e que, enfim, morreria sobre uma cruz, mas que ressuscitaria depois.

Outra coincidência com a vida de Jesus!

Na China, Tcheng-tsai, mãe de Confucius, recebeu a visita de um espírito, que lhe disse: - Terás um filho cuja sabedoria excederá a de todos os homens.

Outro possível plágio: -R. P. de Premare, em sua obre "Vestiges des principaux dogmes cretiens, tirés des anciens livres chinoises avec reproduction des textes chinoises ( Paris-1878), cita Tchu-king, que em sua ode Chi-King, no século XII A.C., relata a história de Kiang-Suen, virgem, que recebeu de Chang-Ti, Senhor Supremo, a graça de tornar-se mãe, ao simples parar sobre suas pegadas numa praça, concebendo Hu-Tsi. Chegado o seu dia, ela concebeu o seu primogênito como um terno cordeiro, sem esforço, sem dores e sem mancha. Esta terna mãe o deitou num pequeno recanto ao lado do caminho; bois e cordeiros o aqueceram com seus hálitos; os habitantes das matas acudiram, apesar do rigor do frio. Os pássaros voaram sobre o menino como que a cobri-lo com suas asas... Essa lenda (verdadeira para os crentes da época) é um milênio anterior à do nascimento de Jesus.

Os druidas esculpiram uma imagem de uma mulher com o filho nos braços, onde se encontrava a inscrição: “ A virgem que deve conceber”. Essa estátua é do XVIII século A.C. e foi encontrada nas escavações para a construção da Catedral de Chartres.

Tal como o espírito divino que fez com que Maria se engravidasse, consta das Escrituras Mazdeanas, que um raio da Glória Divina entrou na mãe de Zoroastro, que o concebeu; isso no IV século A.C.

Sargão I, rei de Sumer e Akkad, filho da princesa Kunti, ou Pritha, virgem, que, para esconder dos pais sua falta, colocou o filho num cesto de vime e o soltou no Rio Ganges, fato ocorrido 2235 anos antes da era cristã.

No caso da gravidez de Maria, consta o seguinte no primeiro evangelho de Mateus, que foi substituído pelo atual:

"Cum haec agerentur, Ioseph in Capharnaum maritima erat in opere occupatus, erat enim faber ligni, ubi moratus est mensibus novem. Reversusque in domum suam invenit Mariam praegnantem. Et totus contremuit et positus in angustia exclamavit et dixit: "Domine Deus, accipe spiritum meum, quonam melius est mihi mori quam vivere". Cui dixerunt virgines quæ cum Maria erant: "Quid ais, domie Ioseph? nos scimus quoniam vir non tetigit eam; nos scimus quoniam integritas et virginitas in ea immaculata perseverat".

Traduzindo: "Enquanto isso sucedia, José se achava na cidade marítima de Cafarnaum ocupado em seu trabalho, pois seu ofício era o de carpinteiro. Permaneceu ali nove meses consecutivos, e, quando voltou à casa, verificou que Maria estava grávida. Exclamou: Senhor e Deus meu, recebe minha alma, pois agora me é melhor morrer do que viver". Porém as donzelas que acompanhavam a Maria lhe disseram: "Que dizes José? Nós todas podemos atestar que nenhum varão se aproximou dela. Estamos seguras de que sua integridade e sua virgindade permanecem invioladas".

José não acreditou nessa estória, e mais adiante: "Ioseph autem dixit: "Ut quid me seducitis ut credam vobis quia angelus Domini impraegnavit eam? Potest enim fieri ut quisquam se finxerit angelum Domini et deceperit eam".

Traduzindo: "Mas José disse: Porque vos empenhais em fazer-me crer que foi precisamente um anjo do Senhor que a fez grávida. Pode muito bem haver sucedido que alguém se haja fingido de anjo e a tenha enganado".

José a seguir:- "E ao dizer isso chorava e se lamentava dizendo: "com que cara vou me apresentar no templo de Deus? Como vou me atrever a fixar meus olhos nos sacerdotes? Que hei de fazer? E enquanto dizia essas coisas, pensava em abandoná-la e ocultar-se.

A gravidez de Maria passou a ser conhecida. A seguir diz o evangelho: "Et comprehensus a ministris templi Ioseph ductus est ad pontificem, qui una cum sacerdotibus coepit exprobrare ei et dicere: “Ut quid fraudatus es nuptias tantae ac talis virginis, quam angeli Dei sicut columbam in templo nutrierunt, quae virum nunquam nec videre voluit, quae in lege Dei eruditionem optimam habuit? Tu autem si ei violentiam no fecisses, illa hodie virgo perseverasset. "

Traduzindo: "Por isso os servidores do Templo prenderam José e o levaram ante o Pontífice. Esse, e mesmo os sacerdotes, começaram a injuriá-lo desta maneira: "Porque usurpaste fraudulentamente o direito matrimonial a uma donzela, a quem os anjos de Deus alimentavam no Templo como se fosse uma pomba, e que nunca quis ver sequer o rosto de um varão, e que tinha ademais um conhecimento perfeito da lei de Deus? Se tu não a tivesses violentado, ela teria permanecido virgem até o dia de hoje. "

Porém José jurava que não a havia tocado.

A seguir: "Y se reunio el pueblo entero de Israel en cantidad tal, que era imposible contarlo. Maria foi levada ao Templo. Y los sacerdotes, al igual que sus parientes y conocidos, le decian llorando: Confitere sacerdotibus peccatum tuum, quæ eras sicut columba in templo Dei et accipiebas cibum de manu angeli".

Traduzindo: "Confessa os teus pecados aos Pontífices: tu que eras como uma pomba no templo de Deus e recebias os alimentos da mão de um anjo".

Mais adiante: convictos de que José era inocente os sacerdotes dizem a Maria:

"Posto que José é inocente, só exigimos de ti que nos diga quem foi que te enganou. De todas as maneiras será melhor que tu mesma te denuncies antes que a ira de Deus ponha o estigma na tua cara à vista de todo o povo".

Essa transcrição é para mostrar que, tanto José como os sacerdotes, tendo provas irrefutáveis da suposta falta de Maria, estavam enganados? Certos estavam os Bispos reunidos em Concílio na cidade de Éfeso, no ano de 431, quando o Bispo Cyrilo (o mesmo que insuflou o povo de Alexandria para o linchamento de Hipácia, filósofa e matemática, célebre por sua beleza e cultura) presidiu o Concílio de onde surgiu o dogma da Divina virgindade de Maria, antes e depois do parto?!

Na história da fundação de Roma, diz-se que tanto Rômulo quanto Remo, eram filhos de Rhea Sylvia, virgem vestal, fecundada pelo deus Marte.

Nada há de extraordinário em uma virgem tornar-se grávida, bastando uma falta de precaução em colóquio amoroso para que a fecundação se processe, e essa virgindade só se torne conhecida no momento da concepção ou do parto. O fenômeno da partenogênese (auto-fecundação) só é conhecido entre vermes, moluscos e raros outros animais.

Recentemente (Jornal do Brasil - 20/06/1987) a Igreja Católica cassou a autorização concedida à professora Uta Ranke Heinemann para ensinar teologia na Universidade de Essen, na Alemanha Ocidental, por acreditar que a Virgem Maria concebeu Jesus por meios naturais. A disputa veio à tona durante a visita do Papa à Alemanha, quando Ranke Heinemann, primeira mulher a ensinar teologia católica, disse que o Dogma da Imaculada Conceição era "uma ofensa a todas as mães normais" e refletia as "características neuróticas e anti-sexuais da Igreja".

Para o católico romano a imagem de Maria é sempre envolta em roupagens reais, com longos mantos bordados a ouro; sempre jovem e formosa, com traços fisionômicos ocidentais, nada lembrando o tipo oriental das mulheres palestinas. Sua beleza perene se compara às pinturas das Vestais de Roma ou às Deusas do Olimpo.

É um sacrilégio, pecado, ou crime, evocar o vulto de Maria como uma mulher do povo, pobre, mal trajada como seria no seu cotidiano, esposa de um humilde carpinteiro de uma pequena aldeia da Galiléia. Em seu lar o que menos sobrava era o pão e as roupas finas.

Não é admissível vê-la em ricos salões, servida por criados engalanados portanto bandejas com iguarias raras, como nas mesas dos poderosos. Isso teria sido possível, e mesmo, corretamente certo, na hipótese de ter sido ela verdadeiramente " a mãe de Deus", o mesmo Deus que teria criado o Universo com os seus bilhões de sois, habitando, então, em palácio de mármore, e servida por uma criadagem em vistosos uniformes.

Se pudéssemos retroceder no tempo e seguir os seus passos, vê-la íamos pelas manhãs, assoprando escassos tições fumarentos para preparar o que fosse possível para a primeira refeição, depois de acordar seus filhos, desempregados, e que raramente conseguiam ganhar algumas moedas em trabalhos eventuais.

Vê-la íamos discutindo os preços das cebolas e dos peixinhos do lago de Genezaré, com humildes camelôs, que eram os únicos fornecedores dos parcos alimentos postos à venda naquela pequena Nazaré, isso depois de conferir a quantidade de pequenas moedas de bronze em seu poder.

Sua vida como dona de casa, seria como hoje, igual a das outras mulheres pobres nas aldeias da Palestina. A higiene corporal era raramente satisfeita em vista da precariedade de água disponível. Os pobres sempre dispuseram de poucas roupas, que raras vezes entravam em contato com água, o mesmo acontecendo com os reduzidos utensílios de barro usados no único cômodo que servia de cozinha, dormitório e sala de estar.

Seria essa a imagem que se nos depararia há dois mil anos atrás.

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