Cismas

O cisma é a divisão ou cisão que se processa no seio de uma comunidade, seja religiosa, científica ou outra qualquer, com o afastamento de um grupo que, por divergência, foge do princípio estabelecido.

Akhenaton, mais de treis mil anos antes da nossa éra, rompeu com o culto tradicional e milenar do panteão egípcio ao tentar estabelecer o monoteismo, proscrevendo o culto às demais divindades. Ferindo os interesses de um clero poderoso, foi ferrenhamente combatido e, após a sua morte, seus seguidores foram destruidos e seu monoteismo esquecido.

Para se ter uma vaga idéia do seu procedimento, admita-se que um Rei ou Papa resolvesse reinstaurar o monoteismo do cristianismo primitivo e condenasse as imagens e os cultos a esses milhares e milhares de santos e santas que povoam os Templos da Igreja Católica!

Os saduceus e fariseus formaram seitas dentro do judaismo e, tendo limitadas suas atuações, com exclusividade, dentro das comunidades judaicas, não ultrapassaram suas fronteiras.

Os saduceus, seita aristocrática, que congregava os membros mais eruditos, não acreditavam na ressurreição e nem na imortalidade da alma, ao contrário dos fariseus. Sendo ambos componentes do chamado “povo de Deus” , como diziam, porque essa divergência de opiniões se a doutrina foi ditada pelo mesmo Deus em que criam?

O cisma dos seguidores de Jesus foi mais profícuo por ter-se expandido além das fronteiras judaicas. Em Antioquia receberam e adotaram o nome de "cristãos" (Atos 11-26). O culto ou religião nascente achou mais guarida ou compreensão no mundo que chamavam de pagão, nome dado a todos que não fossem judeus. Em Roma encontraram um campo fértil para suas idéias, pois pregavam uma vida de delícias após a morte para os pobres e perseguidos, quando sua maior população era compostas de pobres e escravos.

Embora sendo uma doutrina consoladora e esperançosa para os pobres e oprimidos, teve, já no início, os seus contestadores e descontentes, que, desejando imprimir os seus próprios pensamentos, como detentores da própria verdade, criaram os primeiros cismas que nunca mais abandonaram a nova religião, e proliferaram através dos séculos.

João, em Apocalipse 2:6, faz referência aos "nicolaitas", nome dado aos seguidores de um dos sete primeiros diáconos, Nicolau, dando assim, ciência de que os primeiros cristãos, apóstatas do judaismo, não se entendiam entre si, pois cada membro destacado queria impor o seu próprio entendimento.

No primeiro Concílio dos cristãos, realizado secretamente para fugir às perseguições do clero judaico, nos anos 49/50, em Jerusalem, surgiu o primeiro cisma oficial, com discordância, não só disciplinar como dogmática, com abolição da circumcisão e de inúmeras prescrições judaicas. Pedro e Paulo impuzeram suas idéias aos demais apóstolos (Atos 11) que, embora unidos pelo mesmo ideal, tinham frequentes desentendimentos entre si (Atos 15:39).

O próprio Pedro, destacado discípulo de Jesus, deixou de cumprir suas determinações, conforme diz Mateus em 15:24 - “Eu não sou enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”, batizando o pagão Cornélio.

Ainda em vida do apóstolo João, surgiram os ebionitas que interpretavam a pregação de Jesus como salvação sómente para os pobres, conforme consta em Mateus, 11:5. Os ebionitas negavam a divindade de Jesus dizendo ser ele um homem como os outros, nascido de Maria. Seriam essênios convertidos ao cristianismo, na Trans-Jordânia depois da destruição de Jerusalem, no ano 70.

Ainda no primeiro século, Basílides, em Alexandria, provocou novo cisma pregando que o corpo de Jesus era simples aparência, negando a sua humanidade e sua encarnação, pois, sendo ele um ente divino, estaria isento do sofrimento e da dor. Essa interpretação esteve vigente até o século VI, sob a denominação de docetismo.

No 2° século outros cismas surgiram. O "adocionismo" admitia que Jesus era divino sòmente por sua adoção por Deus, através do batismo, e filho adotivo por sua natureza humana. Essa interpretação só foi extinta em 799, pelo Concilio de Aix-la-Chapelle.

O "montanismo", interpretação do sacerdote Phrygio Montano, aceitava os dogmas da Igreja bem como a constante intervenção do Espírito Santo que manifestara a segunda vinda de Cristo, no ano 1000, confirmando a pregação de Cerinto, que dizia haver Jesus nascido como todos os outros homens, distinguindo-se deles apenas em sabedoria e compreensão e que teria sido encarnado pelo Cristo divino, que reinaria por um período de 1.000 anos.

Outros cismáticos criaram divergências e interpretações da doutrina baseados em dezenas de "evangelhos" e escritos de pseudo-evangelistas que, imbuidos de boa fé e misticismo, impuzeram-se nas Sete Igrejas ( Efeso, Smirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia).

O "adocionismo", extinto somente no século VIII pela Inquisição, complicou ainda mais a existência de Jesus, atribuindo-lhe filiação a Deus por sua natureza divina e sua simples adoção por sua natureza humana.

No século 8°, na Espanha, Elipanto, Bispo de Toledo, e Felix, de Ugel, defendiam esse pensamento, contrapondo-se às críticas dos muçulmanos.

Em Alexandria, Carpócrates, teólogo e filósofo, pregava que Jesus era um homem perfeito, filho "natural" de José, com Maria. Segundo ele, as leis humanas eram puras convenções. Os "carpocráticos" foram acusados pela Igreja de anarquistas e igualitários, portanto, de hereges.

Estudando desapaixonadamente o que consta em Mateus, 1:18-20, e Lucas, l:26-36, 39 e 56, chegou-se à conclusão de que Jesus era um simples mortal, filho de pai desconhecido, o que não invalidou o seu ministério. Viu em Jesus um pregador humanitário, um iluminado, criador de toda uma filosofia através do que se chamou Sermão da Montanha. Achava que, de um grande mestre a um ser divino, havia muita distância.

No 3° século, Ario, Sacerdote de Alexandria (280-336), não concordou com a divinização de Jesus por não encontrar o menor apoio nos Evangelhos. Sua doutrina foi amplamente difundida, porem seus seguidores foram massacrados após o cristianismo ser oficializado como doutruina do Império Romano.

Sob os Imperadores Constantino e Teodósio, o cristianismo primitivo passou a se denominar Catolicismo Romano, o que não deixou de ser novo cisma dentro do cristianismo, pois se afastou doutrinariamente do primitivo culto oprimido, passando a ser autoritário e opressor.

Os evangelistas e catequizadores foram substituidos por outros missionários apoiados nos exércitos imperiais que impunham a crença pelo terror, e pelos assassinatos em massa daqueles que demonstrassem resistência à aceitação da nova doutrina, obrigados a aceitarem um novo culto em substituição às suas convicções antigas. Era extremamente difícil para um "pagão" aceitar como Deus um corpo sangrento, pregado e morto numa cruz. Como poderia ser Deus um indivíduo pregado e morto numa cruz? Deus poderia ser crucificado, morto e vilipendiado por seres humanos? Poderia um Deus ser esbofeteado em público?

Apesar das perseguições, novos cismas surgiam ininterruptamente. Nestório, Patriarca de Constantinopla pregava sobre as naturezas de Jesus em desacordo com as outras Igrejas, principalmente a de Roma. Não aceitava a designação de Mãe de Deus para a mãe de Jesus. O raciocínio certo não aceitava que os pais de Maria pudessem ser avós de Deus. Que os irmãos de Maria pudessem ser tios de Deus.

Eutiques, monge bizantino, pregava que Jesus só tinha a natureza divina, nada tendo com sua mãe, Maria, que foi simplesmente o instrumento para trazê-lo ao mundo. A essa doutrina deu-se o nome de "monofisismo", e foi tão amplamente difundida que houve a necessidade de um novo Concílio para combatê-la.

Ainda no século IV os "sabelianos" negavam as tres pessoas da Santíssima Trindade, dogma imposto em 325, pelo Concílio de Nicéia, dando-o como imitação das divinas trindades de outras religiões, tais como no Egito, Suméria, Canaã, India, China e outros povos mais antigos.

No século VII, o "monotelismo" afirmava que na pessoa de Jesus havia uma única vontade. Foi firmado como teoria política para atrair os "monofisistas" do Egito e da Síria que haviam sido "excomungados", e também, para reforçar o Império Romano do Oriente. Em 680, pelo Concílio III de Constantinopla, foi a idéia condenada com a "descoberta" de que Jesus tinha duas naturezas como também, duas vontades!

As complicações teológicas se multiplicavam: na Igreja do Oriente chegaram a descobrir tres vontades em Cristo: “uma de natureza divina; outra de natureza humana e outra, da Pessoa divina”. Vê-se que cada facção desejava fazer uma autópsia nas idéias divinas.

No século IX, Fócio, Patriarca de Constantinopla, um dos maiores sábios da Idade Média, professor da Universidade, Diretor da Chancelaria do Império, retórico e gramático, não concordava com os rumos tomados pela Igreja, dirigida por Papas muitas vezes ignorantes, nomeados por intrigas políticas de Reis e Imperadores, o que provocou a cisão entre as Igrejas de Roma e do Oriente, quando passaram a se excomungar mutuamente, mostrando para o mundo que a Igreja não passava de uma organização política, que quase nada tinha de religião.

No século XI, sugem os "albingenses", cisma surgido na Provença como movimento regional de oposição à dominação econômica, política e religiosa do clero, apoiado pelo feudalismo, de que fazia parte acintosamente. Baseados nos princípios maniqueistas do Bem e do Mal, pregavam o ascetismo e o despojamento dos bens materiais; condenavam os procedimentos do Catolicismo Romano; negavam a divindade e humanidade de Cristo e, principalmente o culto e adoração de imagens e não reconheciam os "santos" fabricados políticamente pelos Papas. Regeitavam o Antigo Testamento e só aceitavam os Evangelhos, indo frontalmente contra os interesses e poder temporal da Igreja, que se encontrava no seu apogeu. Em 1209 o Papa Inocêncio III organizou a mais sangrenta cruzada no cambate aos "hereges". Foram arrazadas, saqueadas, exterminadas cidades inteiras, como Beziers, Narbona, Carcassone, Toulouse. O extermínio foi quase total, abrangendo aldeias e pequenos povoados, com liberdade para saques e estupros de mulheres e crianças aos integrantes dessa terrível cruzada, com promessas de absolvições de todos os seus pecados.

Se os editores modernos publicassem o que se passou nessa cruzada, comandada pelo frade Domingos, santo da Igreja, certamente ninguem mais se declararia católico. O extermínio de judeus por Hiltler, comparado ao exterminios dos albingenses, não passaria de um pequeno entrevêro.

No século XV João Huss funda a Igreja Morávia, que acreditava na simples adoração e na vida cristã austera, tendo a Bíblia como seu guia de fé. Acabou seus dias numa fogueira da Inquisição.

No século XVI houve o maior cisma da cristandade, dividindo a Igreja Católica. Os Papas exploravam as nações com a venda compulsória de indulgências, que iam desde o perdão de algumas semanas no purgatório até a passagem direta da terra para o céu, sem qualquer estágio nesse purgatório, dependendo do valor da oferta para os cofres de S.Pedro.

Martin Luthero, padre agostiniano, doutor em Teologia, professor na Universidade de Wittenberg, se revoltou contra a ordem do Papa Leão X, que enviou para a Alemanha o frade Joannes Tetzel para extorquir dinheiro do povo com a burlesca venda de indulgências. Decidiu romper com Roma, fundando o que, mais tarde, se chamaria protestantismo.

Luthero, embora sacerdote católico, não se conformava com o celibato dos padres que provocava as maiores libidinagens na Igreja, como também era contra a adoração de imagens de barro ou madeira, verdadeiro retorno ao paganismo e que a Igreja se propunha a institucionalizar.

Tanto a Igreja Católica como as igrejas ditas protestantes, vêm se fragmentando em milhares de apostasias, adotando os mais diversos nomes, porém, sempre com a mesma finalidade: explorar a boa fé das populações incultas em benefício próprio.

Todas essas Igrejas se dizem senhoras da Verdade. Todas se acusam e se excomungam mutuamente. Para uma delas, qualquer que seja a sua pujança, as demais são falsas, mistificadoras e hereges.

Se, por acaso, Jesus retornasse ao mundo (cuja volta elas pregam e esperam), em qual porta bateria à procura da" Casa de seu Pai"?

Poderia galgar as escadarias de mármore e se aproximar do trono de ouro e marfim, na suntuosidade dos templos luxuosos, e tentar um diálogo com o seu magestoso representante na Terra, sem se fazer anunciar préviamente?

Desceria o Papa, o seu vigário ("vicarius filii Dei"), do seu trono de veludo e ouro para receber aquele humilde desconhecido, de vestes surradas, sem pão e sem dinheiro, sem bordão e sem alforge, que, ajoelhando-se, ofuscado com o brilho das luminárias, e das pedrarias que ornamentam as vestes do seu representante, e dissesse com voz trêmula:

"Eu sou o Jesus, o filho do José, lá da Galiléia... Fui eu que morri pregado numa cruz, já usada, de madeira, e não como essa de ouro, brilhantes e rubís, dependurada do seu pescoço. Sou o Jesus, o Deus, a terceira pessoa da trintade que vocês inventaram...Por favor, não mande me expulsar ou prender..."

Pobre Jesus! Como teria ultrapassado os magestosos umbrais daquele vetusto palácio repleto de orgulhosos e garbosos "Guardas Suiços"? Que documentos de identidade teria apresentado, ou teria sido uma carta de apresentação de algum magnata das finanças?...


Nenhum comentário: