A Verdade e sua época

“Os crimes mais cruentos de que a história tem
registro foram cometidos sob o manto da religião”.
Mahatma Gandhi

A pesquisa e a observação procuram conhecer o que pode ser uma verdade relativa, em razão do espaço e do tempo. Pode ser realista quando o conhecimento já está dado pela natureza, bastando descobri-la; ou idealista, quando é oferecida ao espírito pela fé. Passa, então, a ter um sentido objetivo, partindo do subjetivo.

A respiração ocorre a nível celular, onde o oxigênio trazido aos pulmões pela corrente sangüínea é trocado por dióxido de carbono. O idealista, na Idade Média, ensinava que a respiração era o sopro divino que Deus inspirou em Adão.

O que era verdade ontem, hoje já pode não o ser mais. A Bíblia e a lenda ensinam que Abraão recebeu da sua mulher uma escrava para dar-lhe descendência, em razão de ser ela estéril. Hoje, isso seria inadmissível.

Desde Aristóteles até Copérnico a verdade era ser a terra o centro do Universo, fixa no espaço. O sol, a lua e as estrelas giravam independentes ao seu redor. Era uma verdade indiscutível que tinha a absoluta aprovação das Sagradas Escrituras. Aristarco (310-230 AC), ao contradizer essa teoria, baseado em estudos astronômicos, foi tido como herege no seu tempo.

Galileu, como Copérnico, ensinava que o sol é que era fixo e a terra era que girava ao seu redor. Isso contrariava uma menção bíblica mencionada em Josué 10:13, em que este disse, à frente do seu exército: "detém-te, sol, sobre Gibeon, e tu, lua, no vale de Ajalon! E o sol se deteve no meio do céu, e não se apressou a por-se, quase um dia inteiro". Em conseqüência, a Igreja Romana, através da Santa Inquisição, moveu processo contra o astrônomo. Consta ter sido nomeado seu defensor o Cardeal Carlos de Médici, cuja notícia foi recebida pelo Tribunal da Inquisição com o seguinte comentário: "Se o alto prelado quiser vir, que venha; mas que se faça acompanhar pelo menor número possível de letrados, porque, não digo que sejam daninhas (as teorias de Galileu), mas dão poucos frutos e são perigosas sem dúvida".

Nessa época, 1619 a 1620, aparece em cena um membro do Santo Ofício, Frei Caccini, que declara: "Se não fosse a proteção do Grão Duque de Toscana, aquele matemático herético já estaria há muito a apodrecer nos cárceres do Santo Ofício".

A Sagrada Congregação do Índice, órgão da Inquisição, afirmava que as declarações de Galileu eram absolutamente repugnantes às Sagradas Escrituras. Noutra passagem do processo, escreve o Padre Maculano: "... deduz-se a necessidade de maior rigor na justiça, e de menos consideração a respeito do acusado, do que se tiveram até agora, neste assunto". Maior rigor na justiça significava a "tortura" para Galileu, nessa data com 69 anos de idade.

Havia entre os membros da Inquisição uma irrequieta expectativa para ver-se o insigne astrônomo levado ao tronco dos sacrifícios. A tortura era dotada de requintes meticulosamente medidos, para que o réu suportasse, com vida, todas as fases de que era revestido o cerimonial. Era um espetáculo disputadíssimo, como os circos romanos ou as touradas e corridas de bigas.

Inicia-se o espetáculo com um interrogatório preparado de tal maneira, que todas as respostas incriminavam a vítima. Seguia-se o espetamento de varetas sob as unhas que levavam sistematicamente a vítima à perda dos sentidos. Era, então, reanimada com jatos de água fria. Procedia-se, então, a extração das unhas, seguida de novo desmaio. Vinham, sucessivamente: ablação da língua, dos olhos, distenção dos membros que chegavam a se desligar do corpo. A série era quase infinita, havendo especialistas para as suas descobertas. Havia a constante preocupação de evitar a morte do supliciado, que deveria ir com vida à apoteose do espetáculo: a fogueira. Era isso que se desejava para Galileu.

Galileu, na manhã de 22 de junho de 1663, quarta feira, é conduzido sobre uma mula, ridiculamente ajaezada, de propriedade da Inquisição, como um palhaço, à sala do convento Dominicano de Santa Maria.

Aí está reunido o Conselho da Santa Inquisição. Fazem parte do júri os seguintes Cardeais Membros do Santo Ofício: Gaspar Bórgia, Felice Sentino d'Ascoli, Guido de Santa Maria del Popolo, Desidério Scaglia de Cremona, Antônio Barberino de Santo Onofre, Laudívio Zacchia, Berlingero, Fabrício de São Lourenço e os diáconos: Francesco Barberino e Martio de Santa Maria, como escrivães.

Esses membros da Inquisição julgaram Galileu, de setenta anos e tendo como ponto básico da heresia: "Ensinado que o sol seja o centro do mundo e imóvel, e que a terra se movia, também, em movimento diurno".

Consta da condenação:

"Dizemos, pronunciamos e declaramos que tu, Galileu, pelas coisas deduzidas em processo, e por ti confessadas como acima, vieste a este Santo Ofício, veementemente suspeito de heresia, isto é, de ter acreditado e mantido doutrinas falsas e contrárias às Sagradas e Divinas Escrituras, que o Sol seja centro do Universo e que a Terra se move de oriente para ocidente e, que ela, a Terra, não seja o centro do mundo..."

Galileu ia ser queimado vivo, porém, apresentaram-lhe a chance de ser poupado à fogueira se fizesse abjuração das suas idéias.

Galileu ante os juizes, ajoelhado, envergando a camisa branca dos penitentes, escuta, imóvel, sem pestanejar, a longa acusação.

A ABJURAÇÃO DE GALILEU

Terminada a acusação, de joelhos ante os Cardeais da Igreja Romana, com a mão direita sobre a Bíblia, lê a sua retratação:

"Eu, Galileu Galilei, filho do falecido Vincenzo Galilei, de Florença, com setenta anos de idade, tendo sido trazido pessoalmente ao julgamento, e, ajoelhando-me diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos Cardeais Inquisidores-Gerais da Comunidade Cristã Universal contra a depravação herética, tendo frente a meus olhos os Santos Evangelhos, que toco com minhas próprias mãos, juro que sempre acreditei e, com auxílio de Deus, acreditarei de futuro em cada artigo que a Sagrada Igreja Católica, Apostólica de Roma sustenta, ensina e prega. Mas porque este Sagrado Ofício ordenou-me que abandonasse completamente a falsa opinião, a qual sustenta que o Sol é o centro do mundo e imóvel, e proíbe abraçar, defender ou ensinar de qualquer modo a dita falsa doutrina. Eu desejo remover da mente de Vossas Eminências e da de cada Católico Cristão esta suspeita corretamente concebida contra mim; portanto, com sinceridade de coração e verdadeira fé, ABJURO, MALDIGO e DETESTO os ditos erros e heresias, e em geral todos os outros erros e seitas contrárias à dita Santa Igreja, e eu juro que nunca mais no futuro direi ou afirmarei nada, verbalmente ou por escrito, que possa levantar semelhante suspeita contra mim."


A sentença e a abjuração foram afixadas em todas as Igrejas da cristandade e nas Universidades. Os "eminentíssimos e reverendíssimos Senhores Inquisidores são convidados a enviar confirmação escrita ao Santo Ofício".

Era Papa Urbano VIII, ex-cardeal Maffeu Barberini, que se dizia amigo e admirador do astrônomo, com quem passava horas falando e discutindo assuntos de astronomia! Antes de se tornar Papa.

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